Em um local não revelado na região de Zaporizhzhia, soldados ucranianos do 33º Regimento de Assalto Separado treinam em 30 de janeiro de 2026. A imagem, capturada pela fotógrafa Tetiana Dzhafarova, simboliza a transformação silenciosa que ocorre nos campos de batalha da Europa Oriental.

Algo significativo está acontecendo na guerra entre Ucrânia e Rússia. Sem alardes ou manchetes, Kiev está revertendo a geometria estratégica do conflito, recuperando a iniciativa contra as forças russas. A chave para esse avanço não está em armas mais poderosas, mas em um princípio fundamental: a adaptação.

O poder da adaptação no campo de batalha

A guerra nunca é estática. Cada evolução tecnológica, cada movimento do inimigo e cada novo cenário apresentam riscos e oportunidades. Os comandantes mais bem-sucedidos são aqueles que identificam essas mudanças primeiro, descartam suposições ultrapassadas e se ajustam antes que o adversário o faça — seja em pequenas táticas ou em grandes estratégias.

Durante a Guerra do Iraque, por exemplo, as forças americanas tiveram que se reinventar. Inicialmente, adotaram o lema “ganhar corações e mentes”, herdado de conflitos anteriores. No entanto, perceberam que os iraquianos não queriam slogans da era do Vietnã nem se espelhar nos EUA. Eles buscavam segurança, confiança e parceria. A solução veio com uma mudança não apenas de táticas, mas de mentalidade: os soldados passaram a lutar junto às forças locais, em vez de apenas operar ao redor delas.

Os insurgentes iraquianos, por sua vez, se adaptaram rapidamente às forças americanas, usando ataques descentralizados, bombas caseiras e operações de informação para minar o apoio público e o ímpeto das operações. Inicialmente, as respostas dos EUA foram lentas. Mas, com o tempo, os comandantes ajustaram suas estratégias, integrando melhor inteligência às operações, empregando tecnologias antiminas, adotando táticas descentralizadas e fortalecendo parcerias com forças locais. O sucesso veio quando os EUA aprenderam a se adaptar mais rápido que o inimigo.

Lições da história: forças menores que superam adversários maiores

A história militar está repleta de exemplos de forças menores e ágeis que superam inimigos maiores e mais lentos. Após a Ofensiva do Tet, em 1968 — um fracasso militar para o Vietnã do Norte e que praticamente extinguiu o Viet Cong como força de combate —, os norte-vietnamitas abandonaram batalhas convencionais e passaram a usar táticas de guerrilha.

Na Guerra de Inverno (1939–1940), a Finlândia, com recursos limitados, usou camuflagem de inverno, mobilidade com esquis e armas improvisadas, como coquetéis Molotov, para conter o Exército Vermelho e defender sua independência. Já na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha utilizou a Blitzkrieg — manobras rápidas com unidades blindadas leves — para conquistar a Polônia, os Países Baixos e a França. A União Soviética, por sua vez, se adaptou cedendo espaço para ganhar tempo, permitindo que o ímpeto alemão se esgotasse com a chegada do inverno.

Como a Ucrânia está aplicando a adaptação hoje

A Ucrânia tem demonstrado uma capacidade notável de inovação em meio ao conflito. Desde o início da invasão russa, Kiev tem ajustado suas táticas com base nas lições aprendidas no campo de batalha. Entre as principais adaptações estão:

  • Uso de drones e inteligência artificial: Para mapear posições inimigas e guiar ataques de artilharia com precisão.
  • Táticas de guerrilha urbana: Em cidades ocupadas, como Bakhmut e Avdiivka, os ucranianos usam túneis, emboscadas e ataques rápidos para desgastar as forças russas.
  • Integração de forças locais: O treinamento e a coordenação com milícias civis e voluntários têm fortalecido a resistência em territórios ocupados.
  • Contra-ataques cirúrgicos: Em vez de grandes ofensivas, a Ucrânia foca em alvos estratégicos, como depósitos de munição e postos de comando russos.
  • Resiliência logística: Com portos bloqueados e ferrovias danificadas, a Ucrânia desenvolveu rotas alternativas para o transporte de suprimentos e tropas.

Essas mudanças não apenas demonstram a capacidade de adaptação ucraniana, mas também refletem uma evolução na mentalidade militar. A Ucrânia não está apenas reagindo às ações russas; ela está antecipando os movimentos do inimigo e se ajustando antes que eles ocorram.

“A guerra é um organismo vivo. Quem não evolui, morre.” — General ucraniano não identificado, em entrevista à AFP.

O futuro da guerra: máquinas, mentes e adaptação

O conflito na Ucrânia também destaca a importância da guerra híbrida, que combina tecnologia, desinformação e táticas assimétricas. Enquanto a Rússia depende de poder de fogo massivo e números superiores, a Ucrânia aposta em precisão, mobilidade e inovação.

À medida que a guerra avança, uma coisa é clara: a Ucrânia não está apenas lutando contra a Rússia, mas também contra o tempo e a burocracia. A capacidade de se adaptar rapidamente — seja em tecnologia, táticas ou estratégia — será o fator decisivo para o desfecho do conflito.