O economista e jornalista Alex Mayyasi, autor do novo livro Planet Money: Um Guia sobre as Forças Econômicas que Moldam sua Vida, explica por que a economia parece tão imprevisível nos dias de hoje. Mayyasi, que escreve sobre negócios, economia e gastronomia, é apresentador do podcast Gastronomics e colaborador de longa data do NPR’s Planet Money. Ex-editor da Priceonomics, ele também fundou a Gastro Obscura, vencedora de dois prêmios James Beard, e publicou o best-seller do New York Times Gastro Obscura.
A economia não é um sistema estático ou controlado centralmente. Trata-se de um organismo em constante evolução, onde informações, tecnologia e comportamentos humanos interagem para reorganizar oportunidades a todo momento. Para ouvir a versão em áudio deste artigo, narrada pelo próprio Mayyasi, acesse o app Next Big Idea ou adquira o livro.
1. O preço é um resumo do mundo
Quando você vê o preço da gasolina subir em um posto, está lendo, na prática, uma manchete de jornal. Talvez seja devido a uma guerra no Oriente Médio, que afeta a exportação de petróleo. Talvez seja pela alta demanda no verão, com viagens familiares. Ou ambos. Não é necessário saber a causa exata: o preço já sintetiza todas as influências sobre a oferta e a demanda de combustível em um único número.
Os preços não apenas transmitem informações; eles também criam incentivos. Quando a gasolina fica cara, as pessoas são incentivadas a reduzir o uso do carro, enquanto empresas são motivadas a aumentar a produção e a oferta. Essa combinação de informação e incentivo é o que faz a mão invisível do mercado funcionar, permitindo uma economia global complexa sem que ninguém precise controlá-la diretamente.
2. A tecnologia não elimina empregos; ela transforma tarefas
Nos anos 1970, os caixas eletrônicos (ATMs) começaram a ser instalados nos bancos, substituindo parte do trabalho dos caixas humanos. No entanto, o número de caixas nos EUA continuou a crescer por décadas. Por quê? Porque os ATMs automatizaram apenas algumas tarefas, liberando os profissionais para atividades que as máquinas não conseguiam realizar, como vender cartões de crédito ou assessorar clientes em investimentos.
Além disso, como os ATMs reduziram os custos operacionais das agências, os bancos abriram mais filiais e contrataram mais funcionários. A tecnologia não elimina empregos de uma vez; ela redefine o trabalho. Essa transição pode ser dolorosa, mas também abre novas oportunidades.
3. Produtos ficam mais baratos; serviços, mais caros
Em 1910, a escritora Agatha Christie, ao se tornar mãe, contratou uma empregada doméstica e uma babá, mas considerava um carro um luxo inacessível. Hoje, a realidade é inversa: muitos possuem carros, mas uma empregada doméstica é um luxo raro. Esse fenômeno revela uma tendência econômica poderosa.
A produtividade no setor de bens (como carros e eletrodomésticos) cresce graças ao avanço tecnológico, tornando esses produtos mais acessíveis. Já os serviços (como cuidados pessoais e educação) dependem mais do fator humano, que não acompanha a mesma velocidade de automação. Por isso, enquanto os preços de bens caem, os de serviços tendem a subir.
Por que isso acontece?
- Automação e escala: Indústrias de manufatura se beneficiam de máquinas e processos padronizados, reduzindo custos.
- Mão de obra especializada: Serviços como saúde e educação exigem qualificação alta e interação humana, limitando a automação.
- Demanda crescente: À medida que a renda aumenta, as pessoas priorizam serviços antes considerados dispensáveis.
4. A incerteza econômica é cíclica — e inevitável
A economia não segue um ritmo linear. Períodos de estabilidade são interrompidos por crises, como recessões ou pandemias, que geram incerteza. No entanto, essa instabilidade não é um defeito do sistema; é uma característica dele.
Os ciclos econômicos são impulsionados por fatores como mudanças tecnológicas, políticas governamentais e comportamentos coletivos. Por exemplo, a crise de 2008 foi desencadeada pela bolha imobiliária, enquanto a pandemia de COVID-19 paralisou cadeias globais de suprimentos. Em ambos os casos, a economia se ajustou, mas não sem consequências.
Entender que a incerteza é parte do processo ajuda empresas e indivíduos a se prepararem melhor para os desafios futuros.
5. O comportamento humano é o maior fator de imprevisibilidade
Mesmo com dados e modelos avançados, a economia não pode prever com exatidão as ações das pessoas. Por exemplo, uma notícia sobre um possível conflito internacional pode fazer com que milhões de consumidores deixem de comprar determinado produto por medo, afetando preços e cadeias de suprimentos.
Esse fenômeno, conhecido como profecia autorrealizável, ocorre quando as expectativas das pessoas influenciam diretamente os resultados econômicos. A psicologia coletiva, portanto, desempenha um papel tão importante quanto os fundamentos econômicos.
"A economia não é um mecanismo estático, mas um ecossistema vivo, onde cada decisão — por menor que seja — pode desencadear ondas de mudanças."