Em The Terror: Devil in Silver, a segunda temporada da série antológica AMC, o cenário não é uma floresta assombrada ou um navio amaldiçoado, mas o Hospital Psiquiátrico New Hyde, uma instituição fictícia que representa os horrores do sistema de saúde mental nos Estados Unidos. A trama, baseada no romance de Victor LaValle, não depende apenas de um monstro sobrenatural para causar medo: o verdadeiro terror está na realidade opressora e negligente que cerca os pacientes.

O protagonista, Pepper (interpretado por Dan Stevens), é um homem erroneamente internado no New Hyde. Ao contrário de um narrador confiável, Pepper é tão vítima quanto os outros personagens, todos presos em um ambiente onde a falta de funcionários, a superlotação e a escassez de recursos transformam a instituição em um pesadelo real. O sistema falha não apenas dentro das paredes do hospital, mas também na sociedade que o mantém funcionando — ou, melhor dizendo, que o negligencia.

Victor LaValle, autor do livro, explica que a adaptação televisiva suavizou o tom didático da obra original para focar na humanidade dos personagens.

"No livro, há momentos em que o narrador — na verdade, eu mesmo — diz tudo de forma muito clara, até explícita. Mas, ao ver esses seres humanos na tela e começar a me importar com eles como pessoas, não preciso bater tanto na tecla. Você já os vê como indivíduos com vidas inteiras, mas após a medicação da manhã ou a refeição do meio-dia, eles estão sentados em uma cadeira, perdidos. Não preciso ser dito o que foi perdido; posso ver o que foi perdido. Essa é a beleza de trabalhar com atores desse nível: sua humanidade se torna a forma de transmitir a raiva, a desesperança e a tristeza do livro. Se o espectador se permitir sentir, não sairá dessa série pensando que 'tudo está bem' ou que 'o sistema é perfeito'."

Dan Stevens, que dá vida a Pepper, reforça que a série usa a narrativa para expor práticas perturbadoras comuns em instituições psiquiátricas reais. O monstro da história não é apenas uma criatura sobrenatural, mas a burocracia, a indiferença e a falta de empatia que perpetuam o sofrimento dos pacientes.

Ao longo da trama, Pepper tenta desesperadamente escapar do New Hyde, mas a verdadeira prisão não é física — é o sistema que o mantém esquecido e desassistido. A série, portanto, funciona como um espelho da realidade, onde o horror não vem de fantasmas, mas daquilo que já existe e é ignorado pela sociedade.