O secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., tem repetido um alerta: os médicos não recebem formação suficiente em nutrição e medicina preventiva durante a graduação. Segundo ele, as escolas médicas precisam priorizar o ensino sobre alimentação saudável e sua relação com doenças crônicas.

Mas como os estudantes de medicina enxergam essa questão? Especialistas e futuros profissionais da área discutem a necessidade de reformular os currículos para incluir disciplinas mais abrangentes sobre nutrição clínica e prevenção.

O problema da formação médica atual

Apesar de a nutrição ser fundamental para a prevenção e tratamento de doenças como diabetes, hipertensão e obesidade, muitos médicos saem da faculdade sem conhecimentos sólidos sobre o tema. Um estudo recente da American Journal of Clinical Nutrition revelou que menos de 30% das escolas médicas nos EUA oferecem mais de 25 horas de aulas sobre nutrição durante todo o curso.

Para Kennedy, essa lacuna contribui para um sistema de saúde que trata sintomas em vez de prevenir doenças. "Os médicos são treinados para prescrever remédios, mas não para orientar mudanças de hábitos que poderiam evitar a necessidade de medicamentos", afirmou em recente entrevista.

O que os estudantes de medicina dizem?

Alunos de medicina entrevistados pela Harvard Medical School destacaram que, embora reconheçam a importância da nutrição, a maioria sente que o tema é abordado de forma superficial nos currículos atuais. "A gente aprende sobre bioquímica e fisiologia, mas quando o assunto é como aplicar isso na prática clínica, falta profundidade", contou um estudante do quarto ano.

Outros relatos incluem a ausência de disciplinas práticas, como aulas de culinária saudável ou discussões sobre políticas públicas de alimentação. "A nutrição é tratada como um tópico secundário, quando deveria ser uma peça central na formação de qualquer médico", criticou uma aluna do terceiro ano.

Mudanças em andamento

Algumas instituições já começaram a ajustar seus programas. A University of North Carolina School of Medicine, por exemplo, incluiu um módulo obrigatório sobre nutrição clínica em 2022. Já a Harvard oferece eletivas focadas em alimentação e saúde pública.

Entretanto, especialistas apontam que, para uma mudança significativa, é necessário um esforço conjunto entre faculdades, órgãos reguladores e o sistema de saúde. "Não adianta só adicionar uma disciplina isolada. Precisamos repensar toda a grade curricular", defendeu a nutricionista e professora Dra. Ana Maria Lajolo.

O papel da sociedade e das políticas públicas

A discussão vai além das salas de aula. Organizações como a American Medical Association (AMA) e a World Health Organization (WHO) têm pressionado por políticas que incentivem a integração da nutrição nos currículos médicos. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE) também tem debatido o tema, destacando a necessidade de formar profissionais mais preparados para lidar com a epidemia de doenças crônicas.

Enquanto isso, pacientes continuam a buscar orientação médica sobre alimentação, muitas vezes sem encontrar respostas adequadas. "As pessoas chegam ao consultório perguntando o que comer para controlar a pressão ou o colesterol, e a gente não tem ferramentas suficientes para ajudar", relatou um clínico geral com 15 anos de experiência.

Conclusão: um desafio a ser superado

A falta de formação em nutrição na medicina é um problema complexo, mas não insolúvel. Com a crescente conscientização sobre a importância da prevenção, é provável que as escolas médicas passem a dar mais atenção ao tema. Até lá, pacientes e profissionais seguirão lidando com as consequências de um sistema que, muitas vezes, prioriza o tratamento em vez da prevenção.