A cineasta e escritora Walter Tevis, autor do clássico de ficção científica O Homem que Caiu na Terra (1963), descreveu sua obra como uma "autobiografia disfarçada", inspirada em suas próprias lutas contra o alcoolismo. Antes de ser adaptado pelo diretor Nicolas Roeg, o livro já havia sido opção de adaptação três vezes. Roeg, no entanto, enxergou na história uma narrativa mais espiritual sobre alienação.
Inicialmente, o diretor pensou em escalar o personagem principal — um inventor extraterrestre — para atores como Michael Crichton (escritor e cineasta de 2,06 m) ou Peter O’Toole, conhecido por seu carisma em Lawrence da Arábia. Até que, convencido pelo documentário Cracked Actor, que retratava um David Bowie em estado de exaustão sob o efeito de drogas, Roeg decidiu transformar o personagem no próprio Bowie.
A crítica Pauline Kael definiu o resultado como "um estranho murchado que representa todos os que se sentem incompreendidos", com sua "expressão andrógina, postura frágil e palidez doentia". Bowie, na época, já havia incorporado a persona de Ziggy Stardust, o rockstar vindo de Marte, e, com o filme, ajudou a moldar sua imagem nos álbuns Station to Station e Low, cujas capas utilizam cenas do longa.
O impacto das estrelas pop no cinema
Quando uma estrela pop assume um papel no cinema, o filme ganha profundidade ao incorporar tudo o que já sabemos sobre sua persona artística. Ao mesmo tempo, a atuação expande essa persona, permitindo que a estrela desenvolva sua imagem em um meio visual e narrativo, deixando uma impressão ainda maior no cenário cultural.
Os stakes — termo também usado no marketing digital para se referir ao alcance de um anúncio — nunca foram tão altos na indústria cultural. Para transmitir uma persona — ou, como chamamos hoje, uma "era" — as estrelas contam com equipes cada vez maiores: diretores criativos, estilistas, cinegrafistas e assistentes. Além disso, precisam atender às expectativas de executivos de gravadoras, marcas parceiras, agências e potenciais colaboradores, cada um com suas próprias equipes e interesses comerciais.
Charli XCX e sua era cinéfila
Nos últimos anos, Charli XCX tem explorado cada vez mais sua paixão pelo cinema, seja em videoclipes, performances ou projetos colaborativos. Essa abordagem não só enriquece sua música, mas também redefine sua presença no cenário pop, transformando sua persona em uma narrativa visual e cultural.
Ao contrário de Bowie, que usou o cinema para consolidar sua imagem de ícone, Charli XCX parece estar em um processo de descoberta, usando o cinema como uma extensão de sua arte. Seja em clipes inspirados em diretores como David Lynch ou em performances teatrais, a artista está construindo uma "era" que transcende a música, incorporando elementos do cinema de forma orgânica.
"O cinema permite que as estrelas pop não apenas sejam vistas, mas também sejam sentidas. É uma forma de criar uma conexão emocional que a música sozinha não consegue atingir."
O futuro das 'eras' das estrelas pop
Com o avanço das redes sociais e a crescente demanda por conteúdo visual, as estrelas pop estão cada vez mais dependentes de uma narrativa coesa que una música, cinema e imagem. Charli XCX é apenas um exemplo de como a indústria está se adaptando, usando o cinema como uma ferramenta para expandir sua persona e engajar seu público.
À medida que as fronteiras entre música e cinema se tornam mais fluidas, é provável que vejamos cada vez mais artistas seguindo esse caminho, transformando suas 'eras' em experiências imersivas e multissensoriais.