Delegados indígenas enfrentam desafios globais no fórum da ONU

Centenas de delegados indígenas chegam esta semana à sede da ONU em Nova York para participar do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas, o maior encontro global desse segmento. No entanto, o cenário é marcado por hostilidades crescentes: a expansão da inteligência artificial, que impulsiona novas formas de extração em terras ancestrais, a política de vistos restritivos do governo dos EUA e os impactos combinados das mudanças climáticas e projetos de energia verde, frequentemente em conflito com os direitos territoriais indígenas.

Tema central: sobrevivência em tempos de guerra

O tema oficial do fórum deste ano é “Garantir a saúde dos povos indígenas, inclusive em contextos de conflito”. Especialistas alertam que as desigualdades históricas — agravadas pelo colonialismo e pelas mudanças climáticas — são intensificadas por conflitos armados e militarização, que ameaçam a degradação ambiental e o deslocamento forçado de comunidades.

A saúde indígena está intrinsecamente ligada ao meio ambiente, à terra e à soberania territorial, segundo especialistas. Por isso, não pode ser reduzida a discussões clínicas sobre medicina ou saúde pública.

Impactos da transição energética e conflitos territoriais

Além da guerra, os defensores dos direitos indígenas destacam que a extração de minerais críticos para a transição verde está gerando violações de direitos. Eles reforçam a necessidade de que os recursos de financiamento climático sejam acessíveis diretamente às comunidades, sem intermediários estatais ou estrangeiros.

Barreiras práticas: vistos e perseguição

Antes mesmo das negociações diplomáticas, muitos delegados enfrentam um obstáculo imediato: as restrições de visto impostas pela administração Trump. Mariana Kiimi Ortiz Flores, da etnia Na Ñuu Savi (México) e assistente de advocacy na Cultural Survival, relata casos recentes de recusa de vistos para representantes indígenas do Sul Global.

“Está cada vez mais difícil acessar os Estados Unidos, não só pela questão do visto. Pessoas do Sul Global, especialmente indígenas com pele morena e características específicas, sentem-se ameaçadas pelo clima de insegurança e discurso de ódio contra latinos e povos indígenas.”

— Mariana Kiimi Ortiz Flores, Cultural Survival

Casos de perseguição e abandono do fórum

No ano passado, Flores auxiliou líderes indígenas da Bolívia a participarem do evento para protestar contra a mineração em terras tradicionais. Após serem assediados pelo líder de um partido político boliviano e enfrentarem problemas de saúde, eles decidiram não retornar.

“O fórum deveria ser para os povos indígenas, mas percebemos que não é mais assim. No fim, os Estados têm mais poder sobre nossas vidas. Essa luta para defender suas terras contra a indústria extrativista afeta não só fisicamente, mas também mental e espiritualmente.”

— Mariana Kiimi Ortiz Flores

Relatório destaca impactos sistêmicos

Um relatório recente de Geoffrey Roth, descendente dos Sioux de Standing Rock e ex-vice-presidente do Fórum Permanente, aborda a extensão desses danos. Roth, atual presidente do conselho da organização, destaca que os povos indígenas sofrem com a tripla pressão da exploração de recursos, conflitos armados e políticas internacionais excludentes.

Chamado à ação global

O fórum deste ano reforça a urgência de políticas que reconheçam a soberania indígena e garantam acesso direto a recursos para adaptação climática. Enquanto isso, organizações como a Cultural Survival seguem pressionando por mudanças estruturais que permitam a participação plena e segura desses povos nos espaços de decisão global.

Fonte: Grist