A indústria chinesa de streaming enfrenta uma transformação radical impulsionada pela inteligência artificial. Com a popularização de microdramas — séries ultra-curtas otimizadas para celulares — o mercado foi inundado por conteúdos gerados por IA, ameaçando empregos e a criatividade humana.
No início deste ano, a ByteDance, dona do TikTok na China, lançou a versão mais recente da ferramenta Seedance, capaz de produzir vídeos hiper-realistas. Cenas de Will Smith lutando contra um monstro de espaguete ou Brad Pitt e Tom Cruise em combate corporal chocaram Hollywood, reacendendo debates sobre o futuro da criatividade na era da IA.
Na China, o impacto é ainda mais intenso. Segundo o New York Times, diretores, atores e equipes de produção chineses relatam uma queda drástica na oferta de trabalho. Em março, mais de 50 mil microdramas gerados por IA foram lançados apenas no Douyin, a versão chinesa do TikTok. Muitos acumulam centenas de milhões de visualizações, alimentando um mercado avaliado em mais de US$ 3 bilhões em 2024 — e que pode superar US$ 16,5 bilhões até o final do ano.
Atores como Li Jiao testemunharam a redução de oportunidades. "Era como se estivesse chovendo, e de repente a chuva parou", declarou ao jornal. Já o diretor Wang Yushun admitiu demitir funcionários devido à baixa demanda por produções ao vivo, enquanto aumentava o uso de IA em seus projetos.
A competição no setor também se intensificou, já que a IA reduz drasticamente as barreiras de entrada para novos criadores. Enquanto isso, o governo chinês tenta regulamentar o uso da tecnologia. Recentemente, o órgão regulador do ciberespaço do país publicou regras exigindo rotulagem clara e consentimento para a criação de "humanos digitais" gerados por IA, além de proibir serviços que possam viciar ou enganar crianças.
Apesar das ameaças ao mercado de trabalho, Li Jiao não defende o abandono total da IA. Ele critica a abordagem atual, que tenta imitar humanos em vez de explorar a imaginação. "Eles ainda estão apenas imitando humanos ou tentando torná-los mais realistas. Deveriam buscar libertar mais a imaginação, trilhando caminhos menos convencionais", afirmou. "Afinal, nosso valor fundamental como humanos está em nossa capacidade de imaginar."