O Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas para o transporte de petróleo do mundo, permanece fechado. No entanto, o preço do barril de petróleo Brent, referência global, está cotado em US$ 107 — valor elevado, mas abaixo dos picos registrados após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, mesmo sem interrupções no fornecimento.

Desde o início do conflito entre Irã e Israel, mais de 10 milhões de barris diários deixaram de circular no mercado, representando 10% da oferta global. A pergunta que intriga analistas e investidores é: por que os preços não explodiram diante de um déficit tão significativo?

Essa questão foi discutida recentemente por Robinson Meyer, editor-executivo da Heatmap News, com Jason Bordoff, diretor-fundador do Center for Global Energy Policy da Universidade Columbia e ex-assessor de políticas energéticas e de segurança nacional na Casa Branca durante o governo Obama.

O que está por trás da estabilidade dos preços?

Bordoff, que também é cofundador da Columbia Climate School, apontou que o mercado de petróleo tem demonstrado uma resiliência inesperada. Segundo ele, fatores como estoques estratégicos, diversificação de fornecedores e ajustes na demanda ajudam a explicar por que o preço não disparou, apesar da crise no Estreito de Ormuz.

“O mercado está reagindo de forma diferente de crises anteriores porque há mais flexibilidade na oferta e na logística”, afirmou Bordoff. Ele destacou ainda que países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos têm aumentado a produção para compensar eventuais perdas, evitando um choque de preços mais severo.

Lições da crise e o futuro do mercado energético

A conversa entre Meyer e Bordoff também abordou o impacto da crise no Estreito de Ormuz para as políticas energéticas globais e a transição para fontes renováveis. Bordoff ressaltou que eventos como este reforçam a necessidade de diversificar as fontes de energia e reduzir a dependência de regiões instáveis.

“A crise atual mostra que a segurança energética não depende apenas de um único ponto de fornecimento, mas de uma estratégia ampla que inclua armazenamento, diversificação e inovação”, explicou Bordoff.

O papel dos EUA e da política energética

Durante a administração Biden, políticas como o incentivo às energias renováveis e a liberação de reservas estratégicas de petróleo foram implementadas para estabilizar o mercado. Bordoff avaliou que, embora essas medidas tenham ajudado a conter pressões inflacionárias, o desafio agora é equilibrar a transição energética com a segurança do abastecimento.

“A transição para uma economia de baixo carbono não pode ser feita às custas da estabilidade do mercado. É preciso um planejamento cuidadoso”, afirmou.

O que esperar nos próximos meses?

Os especialistas alertam que, apesar da aparente estabilidade atual, a situação no Estreito de Ormuz permanece volátil. Qualquer escalada no conflito entre Irã e Israel ou um novo bloqueio à passagem de navios-tanque poderia reverter o cenário atual e pressionar os preços para cima.

“O risco geopolítico continua alto, e o mercado está atento a qualquer movimento que possa desestabilizar o fornecimento”, disse Bordoff.

Para Meyer, a crise atual é um lembrete de que a segurança energética global ainda enfrenta desafios significativos, mesmo em um mundo cada vez mais focado em energias limpas.

“A lição mais importante é que a transição energética não pode ignorar a realidade geopolítica. Enquanto dependermos de combustíveis fósseis, crises como esta continuarão a ter impacto nos preços e na estabilidade econômica.”