Geórgia: De aliada estratégica a pária regional?

A Geórgia, localizada em uma posição geográfica vital entre a Europa e a Ásia, sempre foi um ponto focal para as políticas dos EUA no Cáucaso do Sul e no Mar Negro. No entanto, nos últimos anos, as relações entre Tbilisi e Washington esfriaram significativamente, alimentadas por interpretações equivocadas e uma narrativa distorcida sobre as políticas internas e externas da Geórgia.

A visita de Vance e o equívoco estratégico

A viagem do vice-presidente dos EUA, JD Vance, a Armênia e Azerbaijão em fevereiro de 2026, que não incluiu a Geórgia, foi interpretada por muitos como um sinal de que Washington estaria abandonando Tbilisi. Alguns analistas chegaram a afirmar que a Geórgia teria se alinhado à Rússia e à China, reduzindo sua importância estratégica para os EUA. Outros sugeriram que a Armênia, sob o premier Nikol Pashinyan, estaria substituindo a Geórgia como novo centro de gravidade regional.

No entanto, tais conclusões são totalmente infundadas. O objetivo principal da viagem de Vance era promover o projeto Trump Route for International Peace and Prosperity (TRIPP), uma das principais iniciativas da administração Trump, e não redefinir a política dos EUA para toda a região. Além disso, uma aproximação excessiva com a Armênia poderia gerar fortes reações do Azerbaijão, complicando ainda mais o cenário regional.

Por que a Geórgia continua sendo indispensável

A narrativa de que a Geórgia teria se afastado do Ocidente ignora fatos concretos. Desde 2020, o governo georgiano, liderado pelo partido Georgian Dream, adotou uma política externa e doméstica soberanista, mas isso não significa alinhamento automático com Moscou ou Pequim. Na realidade, a Geórgia mantém uma linha vermelha clara em relação à Rússia, tanto em termos políticos quanto militares, uma postura que nenhum governo georgiano pode ignorar.

Em maio de 2025, o primeiro-ministro georgiano, Irakli Kobakhidze, enviou uma carta aberta ao presidente Donald Trump e ao vice-presidente JD Vance, destacando as semelhanças programáticas entre o governo georgiano e a administração Trump. Kobakhidze também expressou sua insatisfação com o tratamento dispensado à Geórgia pelos EUA, apesar da proximidade política e dos desafios compartilhados.

O que Washington está perdendo?

A deterioração das relações EUA-Geórgia não é culpa da Geórgia. Tbilisi tem feito repetidos esforços para reengajar Washington, mas a resposta tem sido morna. A falta de uma política coerente dos EUA para a Geórgia — baseada em premissas falsas — está enfraquecendo a posição ocidental no Cáucaso do Sul e abrindo espaço para a influência russa e chinesa.

O projeto TRIPP e a oportunidade perdida

O TRIPP, anunciado como uma das maiores realizações da administração Trump, busca promover a paz e a prosperidade internacional por meio de acordos comerciais e diplomáticos. No entanto, a ausência da Geórgia nesse projeto representa uma oportunidade desperdiçada.

A Geórgia não é apenas um parceiro logístico crucial para o TRIPP; ela é também um ponto de equilíbrio no Cáucaso do Sul. Sua infraestrutura portuária, ferroviária e energética é vital para conectar a Europa à Ásia, e sua posição geopolítica a torna um contrapeso natural à Rússia e à China na região.

O que os EUA devem fazer agora?

Para reverter esse quadro, Washington precisa:

  • Reconhecer a soberania da Geórgia e abandonar a narrativa de que Tbilisi estaria se alinhando a Moscou;
  • Reiniciar o diálogo estratégico com o governo georgiano, levando em conta as semelhanças políticas com a administração Trump;
  • Incluir a Geórgia no projeto TRIPP, aproveitando sua infraestrutura e posição geográfica;
  • Evitar polarizar a região com uma aproximação excessiva à Armênia, que poderia alienar o Azerbaijão e a Turquia;
  • Fortalecer a cooperação militar e de segurança com Tbilisi, reafirmando o compromisso dos EUA com a estabilidade do Cáucaso do Sul.

"A Geórgia não abandonou o Ocidente. O Ocidente, em muitos aspectos, abandonou a Geórgia. É hora de corrigir esse erro estratégico antes que seja tarde demais."

— Stefano Arroque, especialista em Relações Internacionais

Conclusão: Um erro estratégico com consequências

A má interpretação da política georgiana e a consequente downgrade unilateral das relações EUA-Geórgia estão enfraquecendo a posição dos EUA na região. A Geórgia continua sendo um parceiro indispensável para conter a influência russa e chinesa, além de ser crucial para o sucesso do projeto TRIPP.

Washington deve agir rapidamente para reverter essa tendência, antes que a Geórgia se veja forçada a buscar alternativas fora do Ocidente. A reaproximação não só fortaleceria a segurança regional, mas também alinharia a política dos EUA aos interesses estratégicos de longo prazo no Cáucaso do Sul.