A indústria do carvão, embora ofereça estabilidade econômica para comunidades como as do Appalachia, também representa riscos significativos à saúde devido às condições perigosas de trabalho e à poluição ambiental. “Ter um emprego é bom para a saúde, mas a poluição ambiental é prejudicial, e esses dois fatores coexistem em muitas comunidades”, explica Mary Willis, epidemiologista da Universidade de Boston.

A produção de carvão nos Estados Unidos atingiu seu pico em 2008, e desde então, tanto a extração quanto o número de mineradores vêm caindo constantemente. Um estudo recente, coautorado por Willis e publicado na revista Rural Sociology, analisa como esse declínio afeta a expectativa de vida nos EUA, com foco especial no Appalachia.

Os impactos mistos do declínio do carvão na saúde

O estudo revela que a redução da indústria carbonífera tem efeitos contraditórios sobre a saúde pública. Por um lado, a diminuição da poluição do ar — associada à queima de carvão — contribui para uma melhora na expectativa de vida. Por outro, a perda de empregos e a instabilidade econômica decorrentes do fechamento de minas e usinas prejudicam o bem-estar das populações locais.

Os pesquisadores analisaram três vias principais de impacto: a produção de carvão, o tempo de trabalho nas minas e o nível de emprego. Para isso, cruzaram dados do U.S. Energy Information Administration com estatísticas de expectativa de vida do Institute for Health Metrics and Evaluation (Universidade de Washington), entre 2012 e 2019.

Resultados reveladores: o caso do Appalachia

Nos condados produtores de carvão dos EUA, a expectativa de vida média é 1,6 anos menor do que em regiões não dependentes da mineração. No entanto, o estudo identificou padrões distintos no Appalachia:

  • Redução da produção e horas de trabalho nas minas: associada a um aumento na expectativa de vida, possivelmente devido à menor exposição à poluição.
  • Diminuição do número de empregos: relacionada a uma queda na expectativa de vida, refletindo os danos econômicos e sociais da perda de renda.

“Os resultados mostram que o emprego e a estabilidade financeira são fundamentais para a saúde, mas também destacam a necessidade de uma transição justa para a energia limpa, que não deixe ninguém para trás”, afirma Willis.

A busca por uma transição justa

O estudo reforça a importância de políticas que equilibrem a redução da poluição com a criação de novas oportunidades econômicas para trabalhadores do setor. A transição energética deve priorizar:

  • Investimentos em energias renováveis e infraestrutura verde;
  • Programas de requalificação profissional para mineradores;
  • Suporte financeiro e social às comunidades afetadas.

Sem essas medidas, o declínio do carvão pode agravar desigualdades históricas e comprometer ainda mais a saúde e o desenvolvimento regional.