Filmes de ação costumam viver em um universo paralelo, onde brigas são tão comuns quanto respirar. Obras como John Wick e Kill Bill criam um mundo onde a violência é onipresente, resolvendo conflitos com socos e chutes — e ninguém questiona por quê. Nesse universo, brigas não são exceção, mas regra. RZA, produtor e diretor de hip-hop, já explorou esse território antes. Em O Homem de Punhos de Ferro, seu primeiro longa, ele mesmo estrelou como um ferreiro com punhos de aço em uma fantasia de artes marciais. Agora, em One Spoon of Chocolate, o cineasta abandona o exagero para mergulhar em um drama de ação mais próximo da realidade, embora ainda carregado de simbolismo.

No centro da trama está Randy “Unique” Joneson (Shameik Moore), um veterano militar e ex-presidiário que retorna à sua cidade natal para recomeçar. Seu primo, Ramsee (RJ Cyler), o recebe de braços abertos e até coloca o nome dele na escritura da casa. A vida parece voltar aos trilhos até que supremacistas brancos invadem o centro comunitário onde Unique e Ramsee jogam basquete, impondo sua presença tóxica. Unique, ainda se adaptando à cidade, reage com violência — e a satisfação dura pouco. Os antagonistas não são vilões comuns: eles sequestram pessoas negras para extrair seus órgãos, e Unique logo descobre que não pode simplesmente “chutar bundas” como nos filmes de ação. A retaliação é brutal. O líder do grupo, Jimmy (Harry Goodwins), sequestra Ramsee e o prende sob acusações falsas, enquanto Unique é obrigado a se esconder e se preparar para uma vingança que não será rápida nem justa.

One Spoon of Chocolate não é um filme de ação frenético. É um drama com doses de violência, onde a tensão é construída lentamente. Antes do confronto final, vemos Unique e Ramsee vivendo vidas realistas, com seus problemas cotidianos e sonhos. Quando a trama finalmente explode, o resultado não é glorioso, mas trágico. Não há nada de “divertido” em supremacismo branco, assassinatos ou policiais corruptos. A violência existe, mas não é romantizada — e a justiça, quando chega, chega tarde demais.

Se você é do tipo que gosta de catarse imediata, pode se frustrar. RZA optou por um ritmo paciente, construindo personagens complexos e vilões unidimensionais, mas necessários para transmitir sua mensagem. O filme funciona melhor para quem está disposto a esperar pelo clímax, mesmo que ele não seja satisfatório no sentido tradicional. Afinal, em um mundo onde o racismo e a opressão são estruturais, a vingança não é uma solução — é apenas mais uma consequência.

Para os fãs de cinema que buscam algo além de explosões e heróis imbatíveis, One Spoon of Chocolate oferece uma experiência diferente. RZA prova que ação pode ser mais do que pancadaria: pode ser um grito contra a injustiça, mesmo que o grito seja abafado pela realidade.

Fonte: The Wrap