Nova estratégia de contra-terrorismo dos EUA exclui extrema-direita e mira em pessoas trans
A Casa Branca divulgou, nesta quarta-feira (14), a nova Estratégia de Contra-Terrorismo dos Estados Unidos, o primeiro documento do tipo desde 2021. Na ocasião, a administração Biden destacava a necessidade de combater a violência de supremacistas brancos, mas essa menção foi removida do site oficial.
O novo texto, elaborado sob a orientação de Sebastian Gorka, assessor de contra-terrorismo do governo, não menciona em nenhum momento a extrema-direita. Em vez disso, equipara como ameaças de igual gravidade grupos como "Extremistas Violentos de Esquerda, incluindo Anarquistas e Antifascistas", "Terroristas Islâmicos Tradicionais" e "Narcoterroristas e Gangues Transnacionais".
A estratégia agora prioriza a "identificação e neutralização rápida" de grupos políticos seculares cuja ideologia é definida como "anti-americana, radicalmente pró-transgênero e anarquista".
Transgeneridade associada a atos violentos sem provas
O documento faz uma ligação questionável entre pessoas trans e violência, citando o assassinato de Charlie Kirk, ativista conservador, como exemplo. Segundo o texto, o crime teria sido cometido por alguém que "defendia ideologias transgêneras extremas".
A Heritage Foundation, organização conservadora, também tem trabalhado para vincular ativismo trans a terrorismo, pressionando o FBI a classificar a defesa dos direitos trans como extremismo violento.
Durante coletiva de imprensa, Gorka afirmou que o governo iria "esmagar" qualquer ameaça, incluindo "os cartéis, os jihadistas ou os extremistas de esquerda como o Antifa — e como os assassinos transgêneros, os não-binários e os radicais de esquerda que mataram meu amigo Charlie Kirk. Nós os enfrentaremos de frente".
Em 2023, o ex-presidente Donald Trump afirmou, sem fundamento, que haveria um "aumento incrível" no número de atiradores trans nos EUA — uma alegação que ressurge sempre que ocorrem tiroteios.
Documento é criticado por ignorar maior ameaça doméstica
O representante Bennie G. Thompson (D-Miss.), membro do Comitê de Segurança Interna da Câmara, classificou o documento como uma lista de alvos, não um plano estratégico. Segundo ele, a estratégia ignora a extrema-direita, grupo responsável pela maioria dos atos violentos contra civis nos EUA há décadas.
Thompson declarou em comunicado que o texto apresenta "uma lista de 'conquistas' falsas da administração em contra-terrorismo, incluindo deportações em massa e mais de 40 ataques militares não autorizados e letais contra embarcações no Hemisfério Ocidental". Além disso, segundo ele, "não há objetivos estratégicos, linhas de ação ou atribuições claras para as agências".
Termo 'contra-terrorismo' ganha novo uso político
O conceito de contra-terrorismo tornou-se comum após os ataques de 11 de setembro de 2001 e as invasões do Afeganistão e do Iraque. Na época, o termo foi usado para justificar a vigilância e perseguição a comunidades muçulmanas e árabes nos EUA, rotuladas como "ameaças terroristas". Agora, a mesma retórica é direcionada a pessoas trans.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, chegou a comparar a morte de Kirk a um "9/11 doméstico". A Heritage Foundation também tem atuado para associar transgeneridade a terrorismo, pedindo ao FBI que classifique a defesa dos direitos trans como extremismo violento.
O documento finaliza com uma promessa de identificar membros de grupos-alvo, mapear suas conexões com organizações internacionais como o Antifa e usar "ferramentas de aplicação da lei para prejudicar suas operações".