Dois empreendimentos ligados a Donald Trump Jr. e Eric Trump conquistaram contratos governamentais de alto valor nos últimos meses, ampliando as suspeitas de enriquecimento pessoal da família presidencial por meio de negócios envolvendo o governo federal.
A Powerus, fabricante de drones fundada por ex-membros das Forças Especiais do Exército americano, fechou um acordo não revelado com a Força Aérea dos EUA para fornecimento de drones, enquanto o país mantém tensão militar com o Irã. A empresa, que se tornou pública em março por meio de uma fusão reversa com um clube de golfe, tem os filhos do ex-presidente no conselho administrativo e é financiada pela American Venture, empresa de investimentos da família, e pela Dominari Securities, banco de investimentos dos irmãos.
Brett Velicovich, cofundador da Powerus, afirmou à Bloomberg que a escolha da empresa não teve relação com os investidores ligados à Casa Branca. "Eles não vão escolher um sistema por causa de quem está na lista de investidores. Eles estão escolhendo porque precisam agora", declarou.
Apesar das justificativas, a decisão levanta questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse. Segundo relatório do Center for Security and Emerging Technology da Universidade Georgetown, há pelo menos 187 fabricantes de drones nos EUA, mas a Powerus foi a selecionada.
Acordo milionário no Cazaquistão
Além do contrato com a Força Aérea, os irmãos Trump fecharam outro negócio de alto valor no Cazaquistão. Uma empresa de fachada, apoiada por Don Jr. e Eric, anunciou a fusão com a Kaz Resources, subsidiária da Cove Kaz Capital — uma mineradora que, no ano passado, recebeu US$ 1,6 bilhão em apoio do governo americano para competir com empresas chinesas e russas.
Em agosto de 2023, os irmãos investiram US$ 24 milhões na Skyline Builders, uma construtora, por meio de uma special purpose vehicle (SPV) estruturada pela Dominari Securities. Em outubro, a Skyline adquiriu 20% da Kaz Resources por US$ 20 milhões, e no dia 6 de novembro, a Cove Kaz Capital anunciou a fusão com a mineradora, formando uma das maiores reservas de tungstênio do mundo.
A operação não mencionou os nomes dos irmãos Trump, mas fontes da Financial Times confirmaram que a Skyline, empresa controlada por eles, foi incorporada ao acordo. Um porta-voz de Don Jr. negou qualquer envolvimento ativo do filho do ex-presidente nas negociações ou no governo. "Don é um investidor passivo na American Ventures e não tem envolvimento operacional na empresa. Ele não representa nenhuma empresa em que investe ou assessora perante o governo federal", declarou o representante.
Padrão de negócios questionável
Os acordos recentes reforçam um padrão de negócios da família Trump que tem sido alvo de críticas. Desde o início do mandato de Donald Trump, empresas ligadas a seus filhos conquistaram contratos governamentais, incluindo obras de infraestrutura e fornecimento de equipamentos militares. A proximidade entre o poder político e os interesses financeiros da família já havia sido investigada por órgãos de controle nos EUA.
Em 2020, a ProPublica revelou que a Trump Organization lucrou com aluguéis de propriedades federais enquanto o ex-presidente ocupava a Casa Branca. Além disso, a Eric Trump Foundation, que arrecadava doações para caridade, foi acusada de desviar recursos para gastos pessoais.
"Os negócios dos filhos de Trump durante a administração de seu pai levantam sérias dúvidas sobre conflitos de interesse e uso indevido da influência política para benefício financeiro", afirmou um especialista em ética governamental ouvido pela imprensa.