Operações federais em Los Angeles: o caso que não se sustentou

Em junho de 2025, soldados da Guarda Nacional em uniformes de camuflagem deserto desembarcaram de vans não identificadas em East Los Angeles. Bloquearam a East Sixth Street, uma rua residencial, e uma via próxima a uma escola primária. Agentes federais, acompanhados por uma equipe da Fox News, lançaram granadas de efeito moral em uma casa e invadiram o local. O alvo era Alejandro Orellana, fuzileiro naval veterano e funcionário da UPS, acusado de liderar uma suposta conspiração de insurrecionistas.

Vídeos mostravam Orellana, de 30 anos, distribuindo água, comida e máscaras de proteção a manifestantes que protestavam contra as operações de imigração da administração Trump. Durante a prisão, transmitida ao vivo, Orellana, seus pais e irmãos foram algemados enquanto agentes revistavam a casa. Bill Essayli, então chefe da promotoria federal em Los Angeles, declarou à imprensa:

«Parece que eles são bem orquestrados, coordenados e financiados. Hoje foi uma das primeiras — e principais — prisões que realizamos.»

Orellana foi acusado de conspiração — sob uma lei federal geralmente usada contra traficantes de drogas e organizações criminosas — e de incentivar desordem civil. No entanto, semanas depois, o caso ruiu. A busca na casa não encontrou provas incriminatórias, e nenhum outro suspeito foi indiciado. Em julho, as acusações foram retiradas.

Centenas de prisões, poucas condenações

Desde outubro de 2024, a administração Trump tem destacado operações em cidades americanas para capturar imigrantes em situação irregular e prender opositores, classificando-os como terroristas domésticos ou extremistas. Agentes federais detiveram centenas de cidadãos americanos — manifestantes, ativistas, transeuntes e, em alguns casos, familiares de pessoas visadas para deportação.

Uma investigação conjunta da ProPublica e FRONTLINE analisou mais de 300 casos de pessoas presas durante operações de imigração e acusadas de crimes como agressão ou obstrução à polícia. Os resultados revelam um padrão: mais de um terço dos casos foi arquivado rapidamente.

Provas em vídeo desmentem versões policiais

O levantamento identificou que depoimentos de agentes foram desmentidos por gravações em diversas ocasiões. Em muitos casos, as acusações não tinham fundamento após análise judicial. A falta de provas consistentes e a fragilidade das alegações levaram promotores a desistir das denúncias em poucas semanas.

Impacto nas comunidades e na justiça

As operações geraram clima de medo e incerteza. Familiares de detidos relataram dificuldades para acessar informações sobre os processos, enquanto ativistas denunciaram perseguição a manifestantes pacíficos. Especialistas em direitos humanos criticam o uso de leis de conspiração para criminalizar a dissidência política.

«Essas prisões não passam de tentativas de intimidar quem se opõe às políticas de imigração», afirmou uma advogada de direitos civis ouvida pela reportagem.

O que vem pela frente?

Com o aumento de operações semelhantes, organizações da sociedade civil pressionam por transparência e revisão dos métodos usados pelas forças federais. Enquanto isso, casos como o de Orellana servem de exemplo do que pode acontecer quando acusações são feitas sem base sólida.

Para especialistas, a falta de condenações reforça a necessidade de fiscalização independente sobre as ações do governo. «A justiça não pode ser seletiva», declarou um professor de direito constitucional.