O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, há anos sustenta a tese de que o governo da África do Sul estaria promovendo um ‘genocídio branco’ contra agricultores brancos no país. Em maio de 2025, durante uma reunião na Casa Branca com o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, Trump exibiu um vídeo enganoso, supostamente mostrando enterros em massa de agricultores brancos, para reforçar sua narrativa.
No entanto, duas recentes decisões judiciais e políticas na África do Sul revelam o quão infundadas são essas alegações. Se o objetivo fosse perseguir ou expulsar a população branca, o governo sul-africano estaria falhando miseravelmente.
Julius Malema, líder radical, condenado por crimes e discurso de ódio
Nesta semana, um tribunal sul-africano condenou Julius Malema, líder do partido de extrema esquerda Economic Freedom Fighters (EFF), por porte ilegal de armas. Em 2018, Malema disparou uma arma semiautomática para o ar durante um comício político. Embora tenha sido sentenciado a cinco anos de prisão, ele permanecerá livre até o julgamento de recursos, podendo continuar como deputado federal.
Malema é conhecido por explorar tensões raciais para mobilizar sua base. Em 2025, ele também foi condenado pela Corte de Igualdade por discurso de ódio após declarar em 2022: ‘Nenhum homem branco vai me bater. Vocês nunca devem ter medo de matar. Uma revolução exige, em algum momento, que haja mortes.’ Esta foi sua terceira condenação judicial.
Se a sentença for mantida, Malema ficará inelegível por cinco anos — uma lei que, ironicamente, os EUA não possuem.
Aliança política que desmente a narrativa de perseguição branca
Outro fato que desmente as alegações de Trump é a aliança política formada em 2024. Após as eleições, o African National Congress (ANC), partido majoritário, optou por se aliar ao Democratic Alliance (DA), de centro-direita e majoritariamente branco, em vez de convidar o EFF para o governo. Essa decisão reforça que a política sul-africana não é movida por uma agenda anti-branca.
Além disso, o ANC, que governou o país por décadas, tem como base eleitoral a população negra, mas sempre manteve representação significativa de brancos em cargos públicos e na economia. A narrativa de ‘genocídio branco’ ignora a diversidade étnica e a coexistência de grupos raciais no país.
O que os dados mostram sobre a violência na África do Sul
Segundo relatórios oficiais, a maioria dos assassinatos na África do Sul não tem motivação racial. Em 2023, o Institute for Security Studies (ISS) registrou cerca de 27 mil homicídios no país, mas apenas uma pequena fração teve relação com conflitos étnicos ou raciais. A criminalidade generalizada afeta todas as etnias, com vítimas predominantemente negras.
Quanto à reforma agrária, o governo sul-africano tem promovido políticas de redistribuição de terras, mas não há evidências de que essas ações sejam direcionadas especificamente contra brancos. Muitos beneficiários da reforma são também agricultores negros.
‘A alegação de genocídio branco na África do Sul é uma distorção política usada para mobilizar apoio em bases raciais, tanto nos EUA quanto na África do Sul. Os fatos judiciais e políticos mostram que não há perseguição sistemática contra brancos.’ — Especialista em relações internacionais, Universidade de Pretória.
Conclusão: por que a narrativa de Trump não se sustenta
A tese de Trump sobre um ‘genocídio branco’ na África do Sul é desmentida por:
- Condenações judiciais contra figuras como Julius Malema, que representam exceções marginais;
- Alianças políticas que incluem partidos de maioria branca;
- Dados oficiais que mostram criminalidade generalizada, não seletiva por raça;
- Políticas de reforma agrária que beneficiam diversos grupos étnicos.
Em vez de promover uma narrativa polarizadora, especialistas sugerem que os EUA deveriam apoiar iniciativas de reconciliação racial e desenvolvimento socioeconômico na África do Sul, em vez de repetir alegações sem fundamento.