A capital dos Estados Unidos, Washington, D.C., foi palco de um evento incomum no dia 3 de maio de 2024. Centenas de pessoas marcharam sob os monumentos da cidade, carregando retratos de soldados do Exército Vermelho. Crianças acenavam bandeiras da União Soviética, enquanto uma orquestra ao vivo tocava canções de guerra no Memorial da Segunda Guerra Mundial. A embaixada russa havia solicitado a autorização, e a polícia metropolitana de Washington ofereceu escolta ao cortejo.

As comemorações foram celebradas pela mídia estatal russa como prova de que, com o retorno de Donald Trump à presidência americana, a "verdade histórica" também havia voltado ao país. Um dos organizadores declarou à televisão russa: "Amamos, respeitamos a Rússia e honramos a memória de nossos heróis."

Marchas semelhantes ocorreram em Paris, Amsterdã e Busan. Em Berlim, autoridades anunciaram a proibição de bandeiras soviéticas, símbolos russos e canções militares próximo aos memoriais de guerra soviéticos nos dias 8 e 9 de maio. Enquanto isso, em Moscou, o tradicional Dia da Vitória — celebrado em 9 de maio — foi marcado pelo medo.

Por décadas, a data foi o ritual político mais sagrado da Rússia, unindo vitória, patriotismo e poder estatal em uma única narrativa. No entanto, em 2024, o Kremlin anunciou que a Marcha do Regimento Imortal, que costuma reunir milhões nas ruas, seria realizada apenas no formato digital. Desfiles militares tiveram equipamentos removidos, e o acesso à internet móvel em Moscou foi interrompido intermitentemente nos dias que antecederam a comemoração. Em São Petersburgo, o número de espectadores caiu de milhares para apenas algumas centenas. Na cidade de Kaliningrado, o desfile foi cancelado integralmente.

A mídia russa publicou relatos extraordinários sobre o presidente Vladimir Putin se recolhendo a bunkers cada vez mais protegidos, com medo de ataques de drones ucranianos e tentativas de assassinato. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia chegou a alertar governos estrangeiros para evacuarem seus diplomatas de Kiev antes do dia 9 de maio, ameaçando retaliações massivas caso a Ucrânia alvejasse as celebrações com drones.

Em um desdobramento ainda mais surpreendente, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky "autorizou" a realização do desfile. Em um decreto propositalmente irônico, emitido após negociações sobre uma trégua temporária, Zelensky excluiu formalmente a Praça Vermelha dos planos operacionais de ataque da Ucrânia durante as comemorações, chegando a listar as coordenadas geográficas exatas da praça.

Ao observar tudo isso, uma pergunta surge: os impérios caem mais facilmente do que os sistemas de sentimentos que eles criam? A União Soviética deixou de existir há mais de 30 anos, mas a arquitetura construída em torno da vitória, do sacrifício e da queixa histórica sobreviveu, estendendo-se por fronteiras, diásporas e projetos políticos rivais.

O que começou como uma narrativa soviética sobre libertação evoluiu para uma linguagem política transnacional, por meio da qual governos, ativistas, diásporas e movimentos ideológicos competem por legitimidade, vitimização e pertencimento. Ao longo dos anos, na Coda, em nossa série Reescrevendo a História, acompanhamos como a memória da Segunda Guerra Mundial se tornou central para a máquina de legitimidade e repressão de Putin. Pouco depois de assumir o poder, a cultura pública russa foi saturada por histórias da Grande Guerra Patriótica. Assistir à televisão estatal russa muitas vezes dava a impressão de que o país ainda estava em guerra — não apenas contra a Ucrânia, mas contra o passado e o futuro.