Durante uma consulta médica anual, é comum o profissional perguntar: ‘Quantas doses de álcool você consome por semana?’ ou ‘Em quantos dias da última semana você bebeu?’. Algumas vezes, a pergunta é ainda mais direta: ‘Você bebe?’
Médicos concordam que avaliar o consumo de álcool — e identificar se ele afeta a saúde física ou mental — é fundamental em qualquer check-up. Existem ferramentas baseadas em evidências para abordar o tema, mesmo em consultas de apenas 15 minutos. No entanto, estudos indicam que triagens e orientações sobre o uso de álcool são frequentemente resumidas ou até mesmo ignoradas durante consultas de atenção primária.
O custo do silêncio: saúde e economia em risco
Esse descaso tem consequências graves. O consumo excessivo de álcool — acima de uma dose por dia para mulheres ou duas para homens — está diretamente relacionado a dezenas de doenças, como cirrose, câncer e doenças cardiovasculares, além de reduzir a expectativa de vida. Mesmo o consumo moderado já foi associado a um maior risco de hipertensão, danos ao fígado e outras condições crônicas.
Apesar dos riscos comprovados, a discussão sobre álcool ainda é tratada como um tabu na medicina. Muitos profissionais evitam o tema por falta de tempo, desconforto ou receio de constranger o paciente. Outros, por sua vez, não sabem como conduzir a conversa de forma eficaz.
Ferramentas existem, mas são subutilizadas
Organizações de saúde, como o Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA), desenvolvem diretrizes e questionários padronizados para auxiliar médicos na abordagem do tema. Um exemplo é o ‘Single Alcohol Screening Question’ (SASQ), que pergunta: ‘Quantas vezes nos últimos 12 meses você consumiu cinco ou mais doses de uma só vez?’
Outra ferramenta amplamente recomendada é o ‘Alcohol Use Disorders Identification Test’ (AUDIT), um questionário com oito perguntas que avalia padrões de consumo, dependência e consequências negativas. Embora eficazes, esses métodos são pouco aplicados na prática clínica diária.
Barreiras no consultório: tempo e formação insuficiente
O principal obstáculo, segundo especialistas, é a falta de tempo durante as consultas. Em um sistema de saúde sobrecarregado, priorizar discussões sobre álcool nem sempre é viável. Além disso, muitos médicos não recebem treinamento adequado para abordar o tema com sensibilidade e eficácia.
‘Os profissionais de saúde muitas vezes não se sentem confortáveis em discutir álcool porque não sabem como fazer isso sem soar julgadores. Mas a verdade é que, se não perguntarmos, não podemos ajudar.’ — Dr. John Doe, especialista em dependência química.
Soluções em discussão
Algumas clínicas e hospitais já estão implementando mudanças para melhorar a abordagem do tema. Entre as estratégias adotadas estão:
- Integração de questionários digitais: Pacientes preenchem formulários antes da consulta, permitindo que o médico tenha informações prévias sobre o consumo de álcool.
- Treinamentos para profissionais: Cursos e workshops para capacitar médicos a discutir o tema de forma clara e empática.
- Protocolos padronizados: Adoção de diretrizes nacionais ou internacionais para guiar a triagem e o aconselhamento.
Para especialistas, o primeiro passo é reconhecer que o álcool é um problema de saúde pública e que, assim como tabagismo ou obesidade, deve ser abordado de forma rotineira e sem preconceitos.