Estudo revela ligação entre poluição do ar e piores resultados após cirurgias

Uma nova pesquisa conduzida na região da Wasatch Front, em Utah (EUA), onde a qualidade do ar frequentemente atinge níveis críticos, identificou uma associação preocupante entre a poluição atmosférica e o aumento de complicações pós-cirúrgicas. O estudo, que analisou dados de quase 50 mil pacientes submetidos a procedimentos não emergenciais, revelou que níveis elevados de partículas finas (PM2.5) estão diretamente relacionados a um maior risco de complicações, incluindo sepse, pneumonia e infecções em feridas cirúrgicas.

Detalhes do estudo e descobertas

Segundo o autor principal da pesquisa, John Pearson, ex-professor assistente de anestesiologia da Universidade de Utah, mesmo um único dia com elevação nos níveis de PM2.5 na semana anterior à cirurgia já representa um aumento no risco de complicações médicas graves e infecciosas. "Quando há um aumento na poluição por PM2.5 na semana antes da cirurgia, mesmo por um dia, observamos um risco maior de complicações maiores e infecciosas", afirmou Pearson, atualmente professor clínico associado da Stanford Medicine e ainda afiliado à Universidade de Utah como pesquisador.

As partículas finas, capazes de se alojar nos pulmões e prejudicar a saúde de diversas formas, são especialmente problemáticas durante os invernos na Wasatch Front, quando inversões térmicas prendem o ar poluído próximo ao solo. Quando os níveis de PM2.5 superam os limites diários estabelecidos pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) na semana pré-operatória, o risco de complicações pós-cirúrgicas sobe de 4,8% para 6,2%. Os resultados foram publicados na revista Acta Anaesthesiologica Scandinavica.

Metodologia e impactos da poluição

Para estabelecer a relação entre qualidade do ar e desfechos cirúrgicos, os pesquisadores analisaram dados de 49.615 cirurgias não emergenciais na região da Wasatch Front. Eles combinaram informações de sensores de qualidade do ar da EPA e do estado, além de dados de satélite, para estimar os níveis de PM2.5 em cada endereço residencial dos pacientes durante a semana anterior ao procedimento. Quanto maior a concentração de poluentes, maior o risco identificado.

A equipe também observou que, embora uma concentração de 35 microgramas por metro cúbico de PM2.5 já seja considerada insalubre, flutuações acima ou abaixo desse limite também influenciam os riscos. A cada aumento de 10 microgramas por m³ no PM2.5, há um acréscimo de 8% no risco relativo de complicações, resultando em um aumento absoluto de 1,4% quando os limites da EPA são ultrapassados.

Os pesquisadores focaram no estudo das partículas finas devido aos seus efeitos sistêmicos no organismo. Como explicou o coautor Nathan Pace, professor de anestesiologia da Universidade de Utah, "partículas desse tamanho ou menores conseguem atingir as partes mais profundas dos pulmões. Algumas atravessam para a corrente sanguínea e podem se depositar em qualquer parte do corpo: cérebro, coração, fígado ou rins". Isso desencadeia um aumento nos níveis de inflamação, sobrecarregando pulmões e coração e potencialmente elevando o risco de infecções.

Próximos passos e limitações

Os autores do estudo ressaltam que a pesquisa utilizou uma medida composta de complicações, que agrega diversos desfechos pós-operatórios. Isso significa que mais estudos são necessários para identificar quais complicações específicas têm maior probabilidade de ocorrer após exposição a altos níveis de poluição. Pesquisas futuras, envolvendo amostras maiores e múltiplos hospitais, poderiam fornecer insights mais detalhados sobre os mecanismos envolvidos e possíveis estratégias de mitigação.

"Este estudo é um alerta importante sobre os impactos da poluição do ar na saúde pública, especialmente em regiões com qualidade do ar historicamente comprometida. Embora sejam necessários mais dados, os resultados já sugerem que pacientes e profissionais da saúde devem considerar a qualidade do ar como um fator relevante no planejamento cirúrgico."