O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) enfrenta uma crise sem precedentes na sua equipe jurídica. O órgão, considerado o maior escritório de advocacia do país, tem solicitado adiamentos em diversos processos judiciais, revelando uma carência massiva de advogados que afeta sua capacidade operacional.

Em um caso civil analisado pelo jornalista independente Scott MacFarlane, uma advogada do DOJ admitiu em documento judicial, datado de 19 de fevereiro de 2025, que a Seção de Apelações perdeu mais de 40% de seus advogados desde fevereiro de 2025, seja por aposentadoria, demissão ou transferência temporária. A profissional declarou: “Neste momento, não é possível designar outro advogado para este caso, pois ele precisaria de tempo para estudar os detalhes.”

A pressão sobre os servidores tem se manifestado de outras formas. Em fevereiro, uma advogada voluntária em casos relacionados à Imigração e Alfândega (ICE) no estado de Minnesota pediu ao juiz que a declarasse em desacato à corte para poder dormir 24 horas seguidas.

“O sistema é uma porcaria, este emprego é uma porcaria. Estou fazendo de tudo para conseguir o que vocês precisam”, afirmou a advogada Julie Le, em depoimento ao tribunal. Desde então, ela foi removida do cargo temporário e realocada para a ICE. Recentemente, Le usou sua notoriedade para lançar candidatura ao Congresso pelo 5º Distrito de Minnesota.

Os dados revelam que a situação é ainda mais grave do que aparenta. Em 2012, o Scotusblog estimava que o DOJ contava com mais de 150 cargos na área de apelações. No entanto, a crise atual abrange todo o departamento, que já teve cerca de 10 mil advogados antes do retorno de Donald Trump à Casa Branca. Até setembro de 2025, mais de 5,5 mil servidores haviam deixado o órgão, segundo a Justice Connection, organização que monitora as saídas do DOJ. As demissões, aposentadorias incentivadas e exonerações políticas contribuíram para essa redução drástica.

A falta de pessoal tem gerado um atraso histórico no sistema judiciário. No setor de imigração, principal prioridade do segundo mandato de Trump, o acúmulo de processos superou 3,3 milhões de casos até fevereiro de 2026, conforme dados do Transactional Records Access Clearinghouse. Isso significa que a vida de milhões de pessoas está em suspenso, aguardando decisões judiciais que definirão seu futuro nos EUA.

A guinada do DOJ para uma agenda alinhada ao movimento MAGA tem gerado preocupação na comunidade jurídica. Ex-procuradores e diretores de ética argumentam que a politização do órgão minou a confiança pública no sistema legal americano.