Um início poético e uma queda abrupta
Guillaume Canet abre Karma com um casal, Jeanne (Marion Cotillard) e Daniel (Leonardo Sbaraglia), dançando lentamente ao som de "Until I Found You", na casa deles em uma vila no norte da Espanha. A letra da música — "Eu disse que nunca cairia, a menos que fosse em você / Estava perdido na escuridão, até que a encontrei" — contrasta com o que está por vir. A câmera de Benoît Debie aproxima-se dos rostos dos atores, capturando cada expressão em tempo real, enquanto a luz das velas ilumina a cena. É o momento mais romântico do filme, mas serve como um prelúdio enganoso para uma jornada punitiva e brutal.
Uma história que se transforma — e nem sempre para melhor
Karma é um filme que muda de forma diante dos olhos do espectador, nem sempre para o bem. Cotillard entrega uma performance intensa, explorando os segredos que corroem os relacionamentos e como cultos religiosos manipulam não apenas mentes, mas também corpos. A trama aborda ainda o abuso cometido quando pessoas falíveis interpretam a vontade de Deus. No entanto, o longa abandona mistérios intrigantes em favor de uma narrativa mais convencional sobre uma mulher que escapa do sistema que a mantinha cativa.
Embora haja satisfação em ver cultos sendo desmantelados, a sensação de potencial desperdiçado persiste. O filme abre mão de seus enigmas centrais cedo demais, optando por longas reflexões que nem sempre agregam profundidade à trama. Um dos primeiros elementos que subverte expectativas é a apresentação da história como um thriller familiar, onde os suspeitos de violência indescritível são aqueles mais próximos.
Tensão e ambiguidade nas relações
Jeanne passa a maior parte de seus dias com seu afilhado, Mateo, levando-o à escola e ao rio. Os pais de Mateo e Daniel, entretanto, questionam a dinâmica entre eles. Daniel chega a perguntar se é normal que uma relação tão íntima exista entre um padrinho e seu afilhado. Cotillard transmite com maestria a ternura e o desconforto desses momentos, como na cena em que ela assiste a uma partida de futebol de Mateo, bebendo álcool, e repreende o treinador por uma decisão ruim. A câmera revela que ela é a única adulta presente.
A produção design e a direção de fotografia de Debie intensificam o mistério inicial. Em uma sequência, enquanto Daniel e Jeanne voltam da delegacia, o carro para no meio do campo. A luz dos faróis corta a neblina, simbolizando a divisão entre clareza e confusão na mente dos personagens. A câmera de Debie adora enquadrar o rosto de Cotillard, destacando suas expressões em momentos-chave.
Potencial não totalmente aproveitado
Apesar de seus pontos fortes, Karma peca ao priorizar reflexões sobre abuso e manipulação em detrimento de uma narrativa coesa. O filme oscila entre ser um drama psicológico e um thriller de fuga, sem conseguir equilibrar os dois gêneros de forma satisfatória. A atuação de Cotillard é o grande destaque, mas a trama deixa a sensação de que poderia ter explorado mais seus mistérios e nuances.
"Karma" é um filme que desperta emoções fortes, mas que, no fim, deixa a impressão de que poderia ter sido muito mais do que é. A jornada de Jeanne, embora intensa, perde força quando a narrativa se torna previsível demais.