O filme ‘A Vida de Uma Mulher’ (La Vie d’une Femme), da diretora Charline Bourgeois-Tacquet, estreou na Mostra Competitiva do Festival de Cannes nesta quarta-feira. A obra começa com um close extremo em uma mulher em meio à paixão, mas a câmera não revela detalhes além do brilho de sua pele sob a luz. Cabe ao restante do longa preencher essas lacunas, apresentando a vida de Gabrielle (Léa Drucker), uma médica de 50 anos, em capítulos bem definidos.

Cada segmento do filme traz um título próprio, como ‘Ego Alterado’, ‘Piedade’, ‘Perda de Controle’ e ‘Fim de um Relacionamento’. Essa estrutura lembra outro sucesso de Cannes sobre a vida de uma mulher: ‘A Pior Pessoa do Mundo’, de Joachim Trier, que lançou a carreira de Renate Reinsve. No entanto, enquanto Julie, protagonista do filme de Trier, é impulsiva e desordenada, Gabrielle é o oposto: uma cirurgiã especializada em microcirurgia facial, que aplica a mesma precisão em sua vida pessoal.

A narrativa é marcada por um ritmo acelerado, com trilha sonora de piano solo que, ao invés de acalmar, intensifica a tensão. Gabrielle é uma profissional exigente, que espera o mesmo comprometimento de sua equipe. Em casa, seu marido, Henri, e o filho dele com música alta a levam a considerar a separação como única solução. Além disso, a saúde de sua mãe, com Alzheimer, exige que ela enfrente a possibilidade de interná-la em uma casa de repouso.

Em meio a esse caos, surge Frida (Mélanie Thierry), uma escritora que acompanha Gabrielle para pesquisar um livro. O que começa como um estudo profissional se transforma em uma aproximação sutil, especialmente em uma cena de dança ao som da Obertura das Hébridas, de Mendelssohn. A beleza da cena contrasta com a urgência dos momentos anteriores, mas logo Gabrielle retorna ao hospital, onde precisa dar más notícias a um paciente com câncer e lidar com sua resistência a uma cirurgia.

O filme destaca os conflitos de Gabrielle com quase todos ao seu redor. Em uma cena, ela discute com uma colega: ‘Não sou vítima das minhas escolhas ou do meu gênero!’, enquanto o som de obras ao fundo reforça a agitação. A relação entre Gabrielle e Frida ganha contornos de uma paixão inesperada, mas a rotina implacável da médica sempre a traz de volta à realidade.

‘A Vida de Uma Mulher’ é um estudo de personagem sobre uma mulher que luta para manter o controle em um mundo que parece conspirar contra sua ordem. Com atuação intensa de Léa Drucker e direção de Bourgeois-Tacquet, o longa promete ser um dos destaques da competição em Cannes.

Fonte: The Wrap