O Estreito de Ormuz, principal rota de exportação de petróleo do Oriente Médio, permanece fechado há mais de um mês, gerando um impacto global na cadeia de energia. A interrupção no fluxo de óleo e gás não só elevou os preços de combustíveis como também de insumos essenciais como fertilizantes, plásticos e alimentos, acendendo o alerta para os consumidores.

Por que o bloqueio afeta tanto o bolso do brasileiro?

O fechamento da passagem — que conecta produtores de petróleo do Golfo Pérsico aos mercados internacionais — reduz a oferta de energia, encarecendo o diesel usado em transportes de carga e agricultura. Segundo o economista agrícola Ken Foster, da Universidade Purdue, os efeitos ainda não são totalmente visíveis nos preços finais, mas a pressão já começa a ser sentida na cadeia de suprimentos.

O que dizem os dados recentes?

Em março, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) nos EUA não registrou alta nos alimentos em relação a fevereiro. No entanto, o Índice de Preços ao Produtor (PPI), que mede os custos antes da chegada ao consumidor, já aponta sinais de aumento nos estágios intermediários da produção alimentícia. Foster explica que os impactos demoram a chegar ao varejo por três motivos principais:

  • Contratos pré-guerra: Muitos produtores e transportadores ainda operam com preços de energia fixados antes do conflito.
  • Absorção de custos: Fabricantes e distribuidores tentam absorver parte do aumento temporariamente para evitar repasses imediatos.
  • Concorrência no varejo: Supermercados evitam reajustes bruscos para não perder clientes.

"Leva tempo para um choque energético se propagar pela cadeia de suprimentos. Muitos carregamentos de óleo e gás que saíram do Estreito de Ormuz antes do conflito ainda não chegaram aos seus destinos finais. Além disso, muitos alimentos são transportados por caminhões ou trens que usam diesel com preços pré-fixados", afirmou Foster.

E se a crise piorar? O que esperar?

Embora um acordo temporário entre EUA e Irã tenha reaberto o Estreito de Ormuz na semana passada, a situação permanece instável. Se as negociações de paz fracassarem, os preços de energia e alimentos podem disparar. Foster alerta que, nesse cenário, os consumidores sentirão o impacto em semanas, especialmente em produtos com alta dependência de transporte, como:

  • Carnes e laticínios (transporte refrigerado)
  • Frutas e legumes (logística de distribuição)
  • Grãos e fertilizantes (insumos agrícolas)

O especialista destaca que, mesmo com a recente trégua, o risco de novos bloqueios ou sanções persiste, mantendo a incerteza sobre os preços a médio prazo.

Brasil pode ser afetado? Entenda a conexão global

Embora o Brasil não seja diretamente dependente do petróleo do Oriente Médio, a alta nos preços internacionais de energia afeta o mercado global. Como o país importa fertilizantes e exporta commodities agrícolas, a cadeia de produção local também pode sofrer pressões. Foster recomenda atenção a três pontos:

  • Custo dos insumos: Aumento no preço de fertilizantes importados eleva o custo da produção agrícola.
  • Exportações: Se a crise reduzir a demanda global, os preços das commodities brasileiras podem cair, prejudicando a balança comercial.
  • Inflação: O encarecimento do diesel e da energia elétrica (gerada por termelétricas) pode pressionar a inflação no Brasil.

Para Foster, a situação exige monitoramento constante, pois os impactos podem se estender além dos combustíveis e atingir diretamente o prato do consumidor.

Fonte: Vox