Uma mulher de 57 anos, com residência permanente nos Estados Unidos há décadas, foi detida por 30 horas no aeroporto de Detroit após admitir, durante fiscalização da Receita Federal, ter votado em uma eleição local nos EUA. O caso, até então não relatado publicamente, levanta questões sobre a crescente fiscalização de supostas fraudes eleitorais por não cidadãos, apesar de registros indicarem que tais ocorrências são extremamente raras.

Estelle — nome fictício usado por questões de segurança — é residente de Lawrence, no Kansas, e viajava frequentemente entre os EUA e sua terra natal, a França. Em março de 2024, ao retornar ao país, foi abordada por agentes da Customs and Border Protection (CBP) durante o processo de entrada. Durante o interrogatório, ela declarou ter votado em novembro de 2023 em eleições para conselho municipal e conselho escolar, acreditando estar apta a participar por ter sido informada, ao renovar sua carteira de motorista em 2023, que poderia votar em eleições locais.

No entanto, o Kansas, assim como a legislação federal, exige cidadania americana para o registro eleitoral. Nenhuma cidade no estado permite que não cidadãos participem de eleições locais. Segundo registros do condado de Douglas, Estelle votou apenas naquela ocasião e não participou de outros pleitos.

Durante a detenção, a mulher foi mantida em uma cela de concreto por uma noite e ameaçada de deportação. Seu advogado, Matthew Hoppock, afirmou que ela não possui histórico criminal nem violou os termos de seu green card. A CBP confirmou a detenção de uma mulher compatível com a descrição de Estelle, iniciando processo de remoção. Em comunicado, a agência reforçou que a votação ilegal é passível de deportação e que continuará a aplicar as leis americanas.

Novo padrão de fiscalização?

Historicamente, a CBP não atuava em investigações de fraude eleitoral. No entanto, o caso de Estelle sugere uma mudança nesse cenário. Um trecho da transcrição de seu interrogatório, obtido pelo ProPublica por meio de seu advogado, indica que a agência já havia sinalizado sua passagem para uma fiscalização especial e que os agentes tinham conhecimento de seu histórico de votação.

Kerry Doyle, ex-advogada de imigração e atual subprocuradora-geral do Departamento de Segurança Interna (DHS) na administração Biden, declarou nunca ter ouvido falar de um caso semelhante. "Eles gastaram muita energia e esforço para encontrar essa agulha no palheiro", afirmou Doyle, destacando a raridade de casos de votação ilegal por não cidadãos nos EUA.

Especialistas em imigração e eleições reforçam que, embora a fiscalização esteja se intensificando, a votação ilegal por não cidadãos permanece excepcionalmente incomum. O caso de Estelle, entretanto, sinaliza um endurecimento nas políticas de fiscalização, especialmente em um contexto de crescente debate sobre segurança eleitoral nos Estados Unidos.