A vitória da oposição liberal na Hungria em abril de 2026 não foi apenas uma derrota simbólica para o primeiro-ministro Viktor Orbán, mas um marco histórico para a democracia liberal. O resultado, obtido pela coalizão liderada por Péter Magyar, representa um recado claro contra o autoritarismo e um exemplo a ser estudado por defensores da liberdade em todo o mundo.
Orbán governou a Hungria por 16 anos com uma estratégia de democracia iliberal, termo que ele próprio utilizava para descrever seu projeto político. Essa abordagem incluiu o controle dos meios de comunicação, perseguição à oposição política, manipulação eleitoral e o uso de instituições estatais para intimidar críticos. A criação da Agência de Defesa da Soberania, em 2024, exemplifica essa tática: o órgão, com poderes vagos e extensos, investigava jornalistas, ONGs anticorrupção e ativistas sob a alegação de servirem a interesses estrangeiros.
O ataque ao Estado de Direito foi uma das marcas de seu governo. Em 2010, Fidesz, seu partido, aproveitou a maioria absoluta para redigir uma nova constituição sem participação da oposição ou da sociedade. Além disso, ampliou o Tribunal Constitucional de 11 para 15 membros, permitindo a nomeação de quatro novos juízes. A reforma também transferiu para o partido o controle sobre a nomeação de magistrados, inclusive a escolha do presidente do tribunal, antes decidida pela própria corte. A redução da idade de aposentadoria dos juízes de 70 para 62 anos possibilitou a substituição de grande parte do Judiciário de uma só vez.
Outra inovação foi a criação da Escritório Nacional de Justiça, que deu ao governo poder para nomear, promover e demitir juízes, além de transferir casos entre cortes — uma manobra que facilitava decisões favoráveis em processos de interesse do partido. Essas mudanças permitiram a Orbán consolidar um sistema onde a justiça, a mídia e as eleições eram controladas por seu grupo político, enquanto a corrupção se disseminava em larga escala.
Os defensores de Orbán agora argumentam que sua derrota eleitoral invalida as acusações de autoritarismo. Em publicações como a The Free Press, críticos como Mike Pesca afirmam que, por ter perdido, Orbán não poderia ser considerado um autocrata. Rod Dreher, escritor americano ligado ao Danube Institute — instituto financiado pelo governo húngaro —, questionou: “Quantos autocratas semi-fascistas fazem discursos de concessão graciosos após perder uma eleição, como Orbán fez?”.
Essa narrativa, no entanto, ignora as evidências de manipulação institucional e perseguição política. Em vez de debater os métodos usados para manter o poder, os apoiadores do ex-primeiro-ministro recorrem a um argumento simplista: “Ele não é Hitler, então deve ser um democrata”. Essa mesma estratégia, alertam analistas, pode ser adotada pelos defensores de Donald Trump nos EUA caso o ex-presidente enfrente derrotas significativas nas eleições de meio de mandato ou em 2029.
Mesmo entre seus aliados, há o reconhecimento de que a corrupção foi generalizada durante o governo Orbán. O legado de seu regime serve como um alerta sobre os riscos do populismo autoritário e a importância de proteger as instituições democráticas. A vitória liberal na Hungria, portanto, não é apenas um evento político local, mas um sinal de esperança para a democracia global.