O clichê “precisamos de alguém que já tenha feito isso antes” já não faz mais sentido no mundo impulsionado pela inteligência artificial. Essa frase, que antes indicava segurança e redução de riscos, hoje pode ser um erro estratégico. O profissional ideal para cargos que exigem adaptação a novas tecnologias e tomada de decisão rápida não é, necessariamente, aquele com vasta experiência no setor.
Por que a experiência setorial pode ser um problema?
Tradicionalmente, empresas buscam candidatos com histórico comprovado em determinada área para preencher vagas. A lógica é simples: reduzir o tempo de adaptação, aumentar a credibilidade e minimizar erros nos primeiros meses. No entanto, esse critério foi desenvolvido em um ambiente estável, onde a execução era o principal objetivo.
Hoje, a IA encurtou prazos, colocou o julgamento no centro da vantagem competitiva e transformou funções que antes exigiam equipes inteiras em responsabilidades de um único profissional. As habilidades mais valorizadas agora incluem:
- Operar sem um manual pré-definido;
- Tomar decisões em condições de incerteza;
- Alinhar diferentes áreas da empresa;
- Adaptar-se rapidamente a novas tecnologias.
Esses atributos não são selecionados quando o filtro prioriza experiência setorial. Pelo contrário, o foco em padrões antigos pode ampliar os riscos em vez de reduzi-los, especialmente em cargos que agora exigem quebra de padrões.
O que a ciência diz sobre novas competências
Um estudo recente da Strategy Science, resumido pela HEC Paris, revelou que profissionais com experiência diversificada dentro do mesmo setor — combinada a vivência em funções transversais — demonstram maior capacidade de antecipar cenários estratégicos em ambientes incertos do que aqueles com especialização profunda e limitada.
Isso significa que o perfil que as empresas costumam contratar pode ser justamente o menos adequado para as demandas atuais. A camada de gerência média é onde esse descompasso se torna mais caro. Esses profissionais são responsáveis por traduzir a visão executiva em ação, validar resultados de IA, liderar equipes em transição e tomar decisões rápidas — tudo com os mesmos recursos e sem aumento de equipe.
O peso da sobrecarga gerencial
Dados da Gartner, citados pela HRDive, mostram que 75% dos gerentes de negócios estão sobrecarregados com responsabilidades crescentes, e 82% dos líderes de RH afirmam que esses gestores não estão preparados para liderar mudanças. A IA não alivia essa pressão; ela adiciona uma nova camada de complexidade:
- Decifrar iniciativas de IA;
- Testar ferramentas e validar resultados;
- Explicar limitações para a diretoria;
- Gerenciar equipes enxutas, com menos colaboradores juniores para absorver tarefas.
Esse conjunto de demandas foi construído de forma incremental até se tornar uma função que nenhum profissional foi projetado para desempenhar sozinho. E a solução tradicional — contratar alguém que já tenha feito isso no setor — não resolve o problema. Na verdade, pode perpetuar um ciclo de contratações inadequadas.
O custo de uma contratação equivocada
Os impactos financeiros e operacionais de uma escolha errada são difíceis de ignorar. Embora o custo visível de contratar um profissional com foco em julgamento — e menos experiência setorial — seja real, o verdadeiro prejuízo está na perda de inovação e na incapacidade de acompanhar a velocidade das mudanças.
Empresas que insistem no modelo tradicional de contratação estão, na prática, contratando para um passado que não existe mais. O desafio agora é repensar os critérios de seleção, priorizando habilidades como adaptabilidade, capacidade de aprendizado contínuo e liderança em ambientes dinâmicos.
“O profissional ideal para a era da IA não é aquele que sabe como as coisas sempre foram feitas, mas aquele que consegue reinventar processos e tomar decisões assertivas mesmo sem todas as respostas.”
Como acertar na contratação em tempos de IA
Para evitar armadilhas na contratação, especialistas recomendam:
- Priorizar habilidades comportamentais: capacidade de adaptação, resiliência e pensamento crítico;
- Avaliar vivência em ambientes incertos: experiências em startups, projetos de transformação digital ou gestão de crises;
- Testar a capacidade de aprendizado: simulações de resolução de problemas ou dinâmicas de grupo com cenários reais;
- Revisar processos seletivos: incluir avaliações práticas que meçam julgamento e criatividade, não apenas conhecimento técnico;
- Investir em upskilling: oferecer treinamentos em IA e novas tecnologias para a equipe atual, reduzindo a dependência de contratações externas.
A era da IA exige uma nova mentalidade na contratação. O foco deve estar em profissionais que consigam navegar pela incerteza, inovar e liderar mudanças — mesmo que não tenham experiência prévia no setor. Afinal, o que o mercado precisa hoje não é de quem já sabe, mas de quem está pronto para aprender e se adaptar.