O Papa Leão XIV condenou, nesta quinta-feira (12), os investimentos em inteligência artificial e armamentos de alta tecnologia, alertando que estão levando o mundo a uma "espiral de aniquilação". Durante visita à Universidade La Sapienza, em Roma — a maior da Europa —, o pontífice também defendeu a paz no Oriente Médio e na Ucrânia.

A fala do líder católico marcou a primeira vez que um papa visita o campus desde 2008, quando o então Papa Bento XVI cancelou um discurso devido a protestos de professores e estudantes. Desta vez, Leão XIV foi recebido com entusiasmo, inclusive por estudantes palestinos recém-chegados da Faixa de Gaza, que chegaram à Itália por meio de um "corredor humanitário" para continuar seus estudos.

Desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, em 2023, o governo italiano, em parceria com organizações católicas, tem auxiliado centenas de palestinos a estudar e receber tratamento médico no país.

Durante um breve encontro na capela da universidade e após seu discurso no auditório principal, o papa se reuniu com alguns dos estudantes de Gaza. Fundada em 1303 pelo Papa Bonifácio VIII, a La Sapienza é uma das instituições de ensino mais antigas da Europa.

Críticas aos gastos militares e ao uso da IA

Em seu discurso, Leão XIV denunciou o aumento drástico dos gastos militares neste ano, especialmente na Europa, em detrimento de áreas como educação e saúde. Segundo ele, esses recursos estão "enriquecendo elites que não se importam com o bem comum".

O pontífice também cobrou maior fiscalização no desenvolvimento e uso da IA, tanto em contextos militares quanto civis, para que "não isente os humanos de responsabilidade por suas escolhas nem agrave tragédias de conflitos".

"O que está acontecendo na Ucrânia, em Gaza e nos territórios palestinos, no Líbano e no Irã ilustra a evolução desumana da relação entre guerra e novas tecnologias em uma espiral de aniquilação."

Leão XIV afirmou que a educação e a pesquisa devem priorizar o valor da vida, especialmente das populações que clamam por paz e justiça.

IA como prioridade na primeira encíclica do papa

O uso da inteligência artificial, especialmente em contextos bélicos e cotidianos, é um dos temas mais críticos para a humanidade, segundo o papa. Esses assuntos devem ser abordados com mais profundidade em sua primeira encíclica, prevista para ser publicada nas próximas semanas.

Testemunho de esperança e dor

Nada Rahim Jouda, de 19 anos, é uma das estudantes de Gaza que conheceu o papa dois dias após sua chegada à Itália. Ela, que agora estuda ciências empresariais em Roma, descreveu a cidade como um "paraíso" em comparação à realidade em Gaza.

— Tudo aqui é verde. Não é cinza, não há problemas por toda parte nem pessoas miseráveis nas ruas — disse.

No entanto, Jouda mantém a preocupação com a família que deixou para trás: sua mãe, em tratamento de leucemia, e suas irmãs de 17 e 13 anos. Durante a guerra em Gaza, a família foi obrigada a se mudar quatro vezes, e a mãe não pôde receber cuidados ou exames para o câncer.

— Todos dependem de mim. Sou a única esperança que eles têm — afirmou.