A história do 'autópsia' do Comitê Nacional Democrata (DNC) em 2025, um relatório encomendado para analisar os erros da campanha presidencial de 2024, é cercada de mistério. O documento nunca foi divulgado ao público, gerando especulações entre os democratas sobre a falta de transparência.
Mas quem teve acesso ao conteúdo? Eu fui um deles. Trabalhei como vice-gerente de campanha de Kamala Harris em 2024 — e antes disso, na campanha de Joe Biden em 2020. Minha função incluía estratégias digitais, mídias sociais, resposta rápida, fundraising e organização online. Fui uma das poucas pessoas que a equipe do 'autópsia' entrevistou, o que já diz muito sobre o processo.
Vale ressaltar: não tive acesso ao relatório final. A equipe entrou em contato comigo em outubro de 2025, meses após as eleições intercalares de novembro, para colher depoimentos. A demora chamou atenção, mas aceitei participar por dois motivos: (1) é essencial aprender com o passado para melhorar futuras campanhas; (2) as estratégias digitais costumam ser mal compreendidas — ou até ignoradas — pelas equipes de análise.
Então, por que o 'autópsia' nunca foi publicado? A resposta, segundo boatos internos do Partido Democrata, é mais simples — e decepcionante — do que se imaginava: o relatório nunca existiu de fato. A equipe nomeada para produzi-lo não conseguiu estruturar um documento coerente. O que foi feito foi um resumo superficial de entrevistas, muitas delas realizadas sem consultar membros-chave das campanhas ou grandes doadores.
O que uma autópsia real revelaria sobre 2024?
Analisando minha experiência nas campanhas de Biden em 2020 (vitória) e Biden→Harris em 2024 (derrota), uma conclusão se destaca: os resultados não definem sozinhos as lições de uma campanha. Em 2020, cometemos erros; em 2024, acertamos em pontos importantes, mas ainda assim perdemos. Nossa campanha foi boa — não ótima, nem perfeita — e enfrentamos um cenário extremamente desafiador.
Os dados mostram que a queda média em direção a Trump foi menor nos estados onde competimos ativamente, em comparação àqueles onde não investimos. Isso sugere que, embora tenhamos feito um trabalho razoável, fatores externos — como o contexto político e a polarização — tiveram um peso decisivo.
‘O problema não foi falta de esforço, mas sim um buraco estratégico que não conseguimos superar.’
O 'autópsia' perdido do DNC expõe uma realidade incômoda: a falta de autocrítica estruturada pode custar caro nas urnas. Sem um diagnóstico honesto, o Partido Democrata corre o risco de repetir os mesmos erros em 2026 e 2028.