O criador de Amphibia, série de sucesso da Disney, Matt Braly, já havia deixado para trás o projeto de seu primeiro longa-metragem animado, Afterworld. Escrito em parceria com Rebecca Sugar, criadora de Steven Universe, o filme estava em pré-produção na Sony Pictures Animation quando foi arquivado. Braly chegou a compartilhar nas redes sociais artes conceituais inéditas e a lamentar publicamente o fim do projeto — que ele mesmo definiu como um "dumping de trauma público".
Em vez de se deter no ocorrido, ele direcionou sua energia para outro empreendimento: Clara and the Below, uma releitura gótica de O Quebra-Nozes com elementos de horror, produzida por seu novo estúdio, a Fantasy Project. A campanha de financiamento coletivo do projeto arrecadou impressionantes US$ 443 mil, e a primeira parte da série será lançada no YouTube ainda este ano, a tempo do Natal.
Porém, enquanto Braly seguia em frente, algo inesperado aconteceu: Afterworld começou a ganhar tração sozinho. O filme, que acompanha um garoto tailandês com deficiência em uma jornada pelo mundo espiritual — onde descobre que nenhum caminho mágico pode curá-lo — viralizou nas redes sociais da Tailândia. A notícia de que Hollywood havia rejeitado uma história tão culturalmente enraizada na Tailândia gerou indignação e mobilização.
"Nesse caso, nós viralizamos na Tailândia. Foi tudo nas redes sociais tailandesas: 'Hollywood rejeitou uma história com influência tailandesa', o que, você sabe, quando as pessoas veem filmes como Moana, todos pensam: 'Por que não a Tailândia a seguir?'," explicou Braly.
Esse fenômeno ilustra como a arte cultural autêntica, combinada ao poder das redes sociais, pode reverter destinos. Além disso, 2024 tem sido um ano promissor para a animação original, com sucessos como Hoppers, da Pixar, e Goat, da Sony, entre os mais rentáveis do ano, além do fenômeno KPop Demon Hunters, que estourou no verão passado.
No caso de Afterworld, há ainda outro diferencial: a possibilidade de ser um filme criado por talentos tailandeses, algo raro na indústria. Braly revelou que três estúdios de animação da Tailândia entraram em contato, interessados em "ressuscitar a ideia ou criar algo novo em colaboração". Inicialmente, ele não quis saber do projeto. "Eu passei muito tempo desenvolvendo essa ideia e esses personagens, e simplesmente não estava disposto a dançar mais", confessou.
Foi então que o estúdio MONK — também conhecido como The Monk Studios, que já havia flertado com o projeto antes de sua queda na Sony — surgiu com uma proposta diferente. "Eles estavam dispostos a fazer um pouco do trabalho inicial", contou Braly. O MONK já atuou como estúdio de apoio em sucessos como Wish Dragon (Sony), The Tiger’s Apprentice (Paramount) e o blockbuster chinês Ne-Zha 2, e agora busca consolidar sua marca com um projeto próprio.
Atualmente, o MONK detém os direitos de Afterworld e planeja iniciar uma campanha de financiamento, começando pelo mercado do Festival de Annecy, no final do próximo mês. O objetivo é arrecadar um valor modesto, mas longe de ser considerado "baixo orçamento", para dar vida ao projeto.