A Suprema Corte dos Estados Unidos e a administração Trump estão promovendo uma série de decisões que, segundo especialistas, visam reduzir drasticamente o poder político da população negra nos EUA. Na última semana, o Tribunal Superior invalidou partes fundamentais da Lei de Direitos Civis de 1965, abrindo caminho para que estados governados por republicanos eliminem distritos congressionais majoritariamente negros.
Na última terça-feira (7), o estado do Tennessee aprovou uma lei para extinguir seu único distrito congressional composto majoritariamente por eleitores negros. Essa medida segue um padrão: Alabama e Carolina do Sul já sinalizaram intenções semelhantes após a decisão da Suprema Corte. O argumento central é que esses distritos são "partidários" — ou seja, compostos por eleitores democratas — e, portanto, podem ser reconfigurados sem violar leis de direitos civis.
O que dizem os especialistas
Em um episódio recente do programa Right Now With Perry Bacon, do The New Republic, o apresentador Perry Bacon Jr. discutiu o tema com dois renomados cientistas políticos: Hakeem Jefferson, da Universidade Stanford, e Jake Grumbach, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo eles, a decisão da Suprema Corte ignora a relação intrínseca entre raça e filiação partidária nos EUA.
«A Lei de Direitos Civis foi uma das legislações mais eficazes da história americana, criada justamente para combater as barreiras impostas à população negra após a Guerra Civil. Agora, a Suprema Corte está redefinindo o que significa discriminação racial, reduzindo o debate a uma questão meramente partidária», afirmou Jefferson.
Grumbach, por sua vez, destacou que a decisão judicial desconsidera o fato de que, historicamente, os distritos majoritariamente negros foram criados justamente para garantir representação política a uma comunidade sistematicamente excluída do processo democrático.
Por que a representação negra importa?
Segundo a cientista política Katherine Tate, citada pelos especialistas, a representação descritiva — ou seja, quando políticos compartilham a mesma identidade racial de seus eleitores — é fundamental para garantir que as demandas da comunidade negra sejam ouvidas e atendidas no Congresso.
- Políticas públicas: Representantes negros tendem a priorizar questões como educação, saúde e justiça social, áreas historicamente negligenciadas em comunidades marginalizadas.
- Simbolismo político: A presença de políticos negros no Congresso envia uma mensagem de inclusão e representa um avanço na luta contra o racismo estrutural.
- Equilíbrio de poder: A redução de distritos majoritariamente negros pode desequilibrar ainda mais o poder político em estados onde a população negra tem peso decisivo.
Consequências para a democracia americana
Para Jefferson, a decisão da Suprema Corte não apenas enfraquece a representação negra, mas também ameaça a integridade do sistema democrático como um todo. «Quando o Tribunal redefine a discriminação racial como uma questão partidária, está, na prática, legalizando a supressão do voto negro», alertou.
Grumbach complementou: «Os estados que estão eliminando esses distritos não estão agindo por acaso. Eles estão aproveitando uma brecha jurídica para concentrar poder em mãos de uma minoria política, enquanto excluem sistematicamente a população negra do processo decisório».
O papel da administração Trump
Desde o início de seu mandato, o ex-presidente Donald Trump e seus aliados têm promovido políticas e nomeações judiciais que favorecem a redução da representação negra. A nomeação de juízes conservadores para a Suprema Corte, como Samuel Alito e John Roberts, foi crucial para viabilizar essas mudanças.
Segundo analistas, a estratégia faz parte de um movimento mais amplo para consolidar o poder republicano em estados-chave, mesmo que isso signifique minar direitos civis historicamente conquistados.
O que vem pela frente?
Enquanto a Suprema Corte e governos estaduais republicanos avançam com essas medidas, organizações de direitos civis já anunciaram que vão recorrer às cortes. A batalha jurídica promete se estender por anos, com potencial para redefinir o futuro da representação política negra nos EUA.
Para especialistas como Jefferson e Grumbach, a luta não é apenas sobre distritos congressionais, mas sobre o próprio conceito de democracia nos Estados Unidos.