Uma queda histórica na dependência do cigarro
Em 2024, pela primeira vez na história, menos de 10% dos adultos norte-americanos fumam cigarros. Segundo dados do National Health Interview Survey, analisados em estudo publicado no NEJM Evidence, a taxa atual é de 9,9%, uma queda vertiginosa em relação aos 42,4% registrados em 1965. Essa redução representa uma das maiores conquistas da saúde pública moderna.
O começo de uma batalha de décadas
Nos anos 1980, a realidade era bem diferente. Mais de um terço dos adultos americanos fumava, e cenas como aviões com cinzeiros nos braços, restaurantes com seções para fumantes e até garçons perguntando "fuma ou não fuma?" eram comuns. Em 1997, ano em que o autor se formou no ensino médio, mais de 30% dos estudantes do ensino médio também fumavam. A fumaça de cigarro permeava a sociedade de forma tão intensa que hoje parece pertencer a outra época.
O marco inicial da virada foi 11 de janeiro de 1964, quando o então Cirurgião-Geral dos EUA, Luther Terry, anunciou em coletiva de imprensa os resultados de um relatório que analisou mais de 7 mil estudos científicos. O documento confirmou os danos do tabagismo e desencadeou uma série de ações governamentais, regulatórias e sociais que durariam décadas.
O custo humano do tabagismo
O impacto do cigarro na saúde foi devastador. Desde 1964, mais de 20 milhões de americanos morreram por causas relacionadas ao tabagismo. Atualmente, o cigarro mata cerca de 480 mil pessoas por ano nos EUA, sendo responsável por uma em cada cinco mortes. Globalmente, o tabaco já ceifou cerca de 100 milhões de vidas no século XX — mais do que o total de mortes na Segunda Guerra Mundial. Hoje, continua sendo a principal causa de morte evitável no mundo.
Estratégias que fizeram a diferença
A redução não aconteceu por acaso. Foi resultado de uma combinação de fatores:
- Ciência e conscientização: Relatórios como o de 1964 expuseram os riscos do tabagismo, mudando a percepção pública.
- Políticas públicas: Proibições de propaganda, restrições ao fumo em locais fechados e aumento de impostos reduziram o acesso e o apelo aos cigarros.
- Ações judiciais: Processos contra fabricantes, como o acordo de 1998 que obrigou a indústria a pagar bilhões em indenizações, enfraqueceram o poder das empresas.
- Mudança cultural: A normalização do não-fumo, a rejeição social ao cigarro e a promoção de estilos de vida saudáveis transformaram hábitos.
Mesmo com a forte resistência da indústria do tabaco — uma das mais poderosas do mundo —, a sociedade conseguiu avançar. Hoje, fumar é considerado "raro" nos EUA, um termo técnico usado em saúde pública para definir prevalências abaixo de 10%.
Lições para outras batalhas de saúde pública
O sucesso no combate ao tabagismo oferece esperança para outras causas, como a obesidade, o uso de opioides ou até mesmo a desinformação em saúde. A história mostra que, com persistência, ciência e políticas bem estruturadas, é possível reverter tendências prejudiciais mesmo diante de interesses poderosos.
"Se você busca provas de que o progresso em larga escala é possível — mesmo quando as probabilidades parecem impossíveis — poucos exemplos são tão eloquentes quanto a história do tabagismo."
O que vem pela frente
Apesar dos avanços, o desafio persiste. O tabagismo ainda é uma epidemia global, com milhões de mortes anuais. Nos EUA, grupos como jovens, pessoas com baixa renda e comunidades minoritárias ainda são mais afetados. Especialistas alertam que, sem vigilância constante, os ganhos podem ser revertidos, especialmente com a popularização de novos produtos como cigarros eletrônicos e dispositivos de nicotina.
O caso do tabagismo nos lembra que a saúde pública é uma batalha contínua, mas também prova que, com esforço coletivo, é possível transformar realidades.