Os bancos centrais do mundo pararam de discutir se as stablecoins representam riscos há muito tempo. Agora, a principal preocupação é definir quem as controlará e como isso será feito. Em 20 de abril de 2026, o diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Pablo Hernandez de Cos, destacou a necessidade de cooperação global sobre o tema, classificando-a como "criticamente importante".

O BIS, conhecido como o "banco central dos bancos centrais", já havia manifestado preocupações com as stablecoins, mas o tom agora é mais firme. De Cos alertou para possíveis corridas bancárias que poderiam desencadear estresse nos mercados, para a aceleração da dolarização em economias emergentes e para a fragmentação regulatória que permite que empresas privadas explorem brechas entre fronteiras. Essa linguagem reflete um risco sistêmico, afastando-se das discussões anteriores, focadas apenas na proteção ao investidor.

Uma stablecoin é uma criptomoeda projetada para manter valor estável em relação a uma moeda fiduciária, como o dólar. As duas maiores do mercado, USDT (Tether) e USDC (Circle), juntas representam cerca de 85% dos US$ 315 bilhões em circulação. Ao contrário de uma conta poupança ou moeda legal, uma stablecoin funciona como um "I owe you" (IOU) privado no valor de US$ 1, lastreado em reservas que incluem títulos do Tesouro dos EUA e projetado para agilidade em transações transfronteiriças e nos mercados de criptomoedas. É justamente essa escala e conveniência que agora preocupam os bancos centrais.

O real perigo: não é a estabilidade do lastro, mas o sistema bancário

A instabilidade no valor do lastro é uma preocupação real: se um emissor não conseguir manter a paridade de US$ 1 durante resgates massivos, o resultado pode ser uma corrida que force a liquidação rápida de ativos de reserva, injetando volatilidade nos mercados de títulos. No entanto, o temor mais profundo diz respeito ao impacto das stablecoins no sistema bancário tradicional à medida que crescem.

Quando as pessoas mantêm tokens em vez de depósitos bancários, os bancos perdem a base de financiamento usada para conceder empréstimos. Quando pagamentos são liquidados em redes privadas de tokens, em vez de sistemas bancários tradicionais, os bancos perdem receitas com taxas, dados de transações e relacionamentos com clientes. O Banco Central Europeu (BCE) foi explícito sobre essa cadeia de consequências: as stablecoins poderiam custar aos bancos europeus essas três fontes de receita simultaneamente, ao mesmo tempo em que dão espaço a tokens denominados em dólar em mercados onde o euro deveria predominar.

Em novembro de 2025, o BCE modelou cenários com US$ 2 trilhões em stablecoins para avaliar seu impacto na estabilidade financeira europeia. A conclusão foi que, nessa escala, as stablecoins se tornam um canal direto de transmissão de estresse financeiro americano para os bancos europeus.

Projeções alarmantes e reação dos reguladores

Pesquisas da Citi, de abril de 2026, projetam que a emissão de stablecoins pode atingir US$ 1,9 trilhão até 2030 em um cenário base, podendo chegar a US$ 4 trilhões em casos de adoção mais ampla. Esses números estão moldando ativamente os horizontes de planejamento dos bancos centrais.

A questão dos depósitos bancários tornou-se urgente. Se as stablecoins oferecerem rendimentos competitivos, os consumidores terão incentivo claro para transferir recursos de contas bancárias seguradas para carteiras digitais de dólar, segundo estimativas da lobby bancário dos EUA. A projeção é que as stablecoins possam extrair cerca de US$ 500 bilhões em depósitos até 2028.

O Federal Reserve, em um documento de março de 2026 sobre stablecoins de pagamento e transações transfronteiriças, acrescentou outra camada de complexidade: um setor de stablecoins grande o suficiente, fora do sistema bancário, pode atenuar a eficácia da política monetária na economia real, uma vez que as ferramentas do Fed atuam principalmente por meio do sistema bancário tradicional.

"As stablecoins não são apenas um novo produto financeiro; elas representam uma mudança estrutural no ecossistema monetário global. Seu crescimento descontrolado pode minar a soberania monetária e a estabilidade financeira." — Pablo Hernandez de Cos, diretor-geral do BIS