A Clínica Mayo, uma das maiores redes hospitalares dos Estados Unidos, implementou uma tecnologia de Inteligência Artificial (IA) para gravar automaticamente interações entre pacientes e enfermeiros, inclusive em salas de emergência. A ferramenta, chamada de "ouvir ambiente", processa os dados coletados para auxiliar na documentação médica eletrônica.
A gravação é opt-out, ou seja, ocorre por padrão e os pacientes precisam solicitar explicitamente para não participar. No entanto, muitos podem não estar cientes da prática, especialmente em situações de emergência, onde a atenção está voltada para o atendimento imediato.
Um familiar que acompanhava seu pai idoso em um pronto-socorro da Clínica Mayo compartilhou com a imprensa uma notificação afixada na parede, informando sobre a gravação. Segundo a testemunha, o aviso era pequeno e não estava próximo ao leito ou cadeiras de visitantes, dificultando a visualização em meio ao caos de uma emergência.
"Cerca de metade da visita do meu pai na emergência, eu precisei me afastar para esticar as pernas e, por acaso, notei o pôster. Ele não estava perto da cama ou das cadeiras, e tinha o tamanho de uma folha de papel comum. Meu pai, certamente, não o viu ou leu", declarou a testemunha, que pediu anonimato para proteger a privacidade do familiar.
O aviso menciona que a gravação pode capturar dados protegidos pela HIPAA (Lei de Portabilidade e Responsabilidade de Seguro Saúde dos EUA), regulamentação que protege informações sensíveis de saúde. O texto orienta os pacientes a perguntar à equipe médica caso tenham dúvidas.
Preocupações com consentimento e precisão
A prática levanta questões sobre consentimento informado e a confiabilidade das anotações geradas pela IA. Um estudo recente revelou que ferramentas de IA para transcrição de consultas médicas podem produzir registros menos precisos do que os feitos por humanos, dependendo do contexto.
A Clínica Mayo utiliza a tecnologia há cerca de dois anos, em parceria com a Epic (gigante de tecnologia médica) e a Abridge (empresa especializada em IA para conversas clínicas). Segundo comunicado da Abridge, a plataforma já é adotada por grandes sistemas de saúde, como o Johns Hopkins Medicine, que a implementou em seis hospitais e 40 centros de atendimento, envolvendo 6.700 profissionais.
Em dezembro de 2024, a Clínica Mayo formalizou um acordo com a Abridge para expandir o uso da tecnologia em sua rede, integrando-a a cerca de 2.000 profissionais que atendem mais de 1 milhão de pacientes.