O filme ‘Butterfly Jam’, estreia em língua inglesa do diretor Kantemir Balagov, é uma experiência cinematográfica que divide opiniões. A obra, apresentada na abertura da Quinzena dos Realizadores de Cannes 2024, combina drama familiar com elementos de surrealismo sombrio, mas sofre com a falta de equilíbrio entre seus componentes.
A trama acompanha Azik (Barry Keoghan), um imigrante circassiano que trabalha como cozinheiro em um restaurante familiar em Nova Jersey. Azik é um personagem excêntrico, com traços que sugerem deficiência cognitiva ou uso constante de substâncias, e sua vida parece limitada ao ambiente fechado do diner e ao círculo social igualmente restrito. A história começa com a morte do pai de Temir (Talha Akdogan), um adolescente de 16 anos, mas rapidamente desvia o foco para Azik, cuja excentricidade rouba a cena.
O filme explora a relação entre Azik e seu filho, Temir, que, apesar de sua pouca idade, demonstra uma maturidade incomum para a situação. A dinâmica familiar é um dos pontos mais fracos da narrativa, especialmente quando se considera que Azik, um pai solteiro, aparentemente sobreviveu sozinho com o filho. A trama também apresenta personagens secundários igualmente excêntricos, como o irmão de Azik, Marat (Harry Melling), e sua irmã, Zalya (Riley Keough), que não oferecem muito apoio ao protagonista.
Um dos momentos mais marcantes do filme é quando Azik aprende a fazer o delen, um prato tradicional circassiano feito com batatas, queijo e ervas. A receita se torna um símbolo do sonho americano de Azik, que acredita ter encontrado sua vocação como chef. No entanto, a narrativa perde força após esse ponto, tornando-se cada vez mais fragmentada e desconexa.
Na segunda metade do filme, a violência irrompe de maneira inesperada, mudando o tom da história. Balagov, que concebeu o projeto originalmente em sua cidade natal, Nalchik, antes de reimaginá-lo em torno da diáspora circassiana em Nova Jersey, parece não conseguir integrar completamente os elementos da trama. O resultado é um filme que oscila entre um drama familiar e um estudo de personagem sobre um homem profundamente excêntrico, sem nunca definir claramente seu propósito.
Apesar de suas falhas, ‘Butterfly Jam’ tem momentos de brilho, especialmente na atuação de Barry Keoghan, que entrega uma performance carregada de excentricidade e vulnerabilidade. Riley Keough também se destaca como Zalya, embora seu papel seja menos desenvolvido. A direção de Balagov é visualmente interessante, mas a narrativa carece de coesão, deixando o espectador com a sensação de estar assistindo a uma série de cenas desconexas em vez de uma história bem estruturada.
Em resumo, ‘Butterfly Jam’ é um filme que pode agradar aos fãs de cinema autoral e experimental, mas que certamente não é para todos. Sua mistura de drama familiar, surrealismo e violência inesperada resulta em uma experiência cinematográfica irregular, que oscila entre o genial e o confuso.