Reestruturação sem precedentes no FBI

O governo Trump promoveu uma reestruturação massiva no FBI, realocando mais de 6 mil agentes para lidar com questões relacionadas à imigração nos primeiros nove meses de seu segundo mandato. Segundo reportagem do The Intercept, divulgada na sexta-feira, a mudança redefiniu as prioridades da agência federal.

Antes de janeiro de 2025, apenas 279 agentes trabalhavam com casos de imigração. Até setembro, esse número saltou para mais de 6,5 mil, um crescimento de 23 vezes. No total, 9.161 pessoas do FBI — quase um quarto dos 38 mil funcionários da agência — atuaram em imigração durante os primeiros nove meses de Trump no cargo.

Escala surpreendente e impactos

A magnitude da mudança é maior do que se imaginava. Em outubro, o The Washington Post havia noticiado que cerca de 3 mil agentes haviam sido realocados para imigração, com base em dados do FBI obtidos pelo senador Mark R. Warner.

“Esse é um número enorme, chocante. Nunca vimos uma escala tão grande antes.”

Aaron Reichlin-Melnick, pesquisador sênior do American Immigration Council

A reorientação do FBI para casos de imigração é histórica. Tradicionalmente, a agência concentra seus recursos em crimes, terrorismo e segurança nacional — áreas que ganharam relevância após os atentados de 11 de setembro. No entanto, nunca antes dedicou tantos recursos a questões civis, o que levanta preocupações sobre o prejuízo às investigações criminais.

“É uma transferência chocante de recursos longe da segurança pública. O FBI está desviando agentes de investigações criminais ativas para atuar em fiscalização de imigração.”

David J. Bier, diretor de estudos de imigração do Cato Institute

Bier também destacou o uso indevido de recursos congressionais: “Isso mostra como os recursos do FBI foram colocados à disposição do ICE, contrariando a intenção do Congresso e o uso adequado dos fundos públicos.”

Outras agências também mudam foco para imigração

O FBI não é a única agência federal que reorientou suas prioridades desde a posse de Trump. O Departamento de Justiça fechou milhares de casos criminais no ano passado para priorizar processos de imigração. Em seis meses, a pasta arquivou cerca de 23 mil casos — incluindo investigações sobre terrorismo, crimes financeiros e tráfico de drogas — enquanto abriu 32 mil novos processos de imigração.

A mudança de foco sugere que a promessa de “tornar a América segura novamente” não está alinhada com as ações do governo atual. Autoridades federais, seguindo orientações presidenciais, realizaram milhares de prisões de imigrantes sem histórico criminal, apesar das promessas de que a “caçada” se concentraria nos “piores criminosos”, como assassinos, agressores sexuais e membros de gangues.