ST. CLOUD, Minnesota — Há quatro anos, Cori Roberts morava em um porão alugado quando descobriu que tinha câncer de colo do útero em estágio inicial. Divorciada recentemente, a ex-dona de casa havia voltado ao mercado de trabalho aos 40 e poucos anos, assumindo um emprego em recursos humanos que pagava US$ 41 mil por ano. Mesmo com seguro saúde, ela foi surpreendida com uma conta médica superior a US$ 8 mil.
“Eu tinha meu carro e uma cesta de roupas. Contas médicas não eram algo que eu pudesse pagar”, contou Roberts. Sem condições de quitar o valor, ela buscou ajuda financeira do CentraCare, o sistema de saúde sem fins lucrativos de St. Cloud que a atendeu. Hospitais como esse recebem milhões em isenções fiscais federais, estaduais e municipais em troca do compromisso de oferecer cuidados de caridade a pacientes que não podem arcar com suas despesas médicas.
No entanto, Roberts disse que o CentraCare informou que ela ganhava demais para se qualificar. Para pagar a dívida, ela cortou gastos com supermercado e presentes de Natal para os filhos, quitando mais de US$ 6 mil em dois anos. Mesmo assim, o hospital a processou no ano passado por não ter pago o valor integral. “Eles são uma instituição sem fins lucrativos. É como se dissessem: ‘Vamos lá!’”, desabafou.
O CentraCare destina uma fração mínima de seu orçamento para ajudar pacientes com dívidas médicas, mas não é o único caso. Uma investigação do Star Tribune e KFF Health News revelou que os hospitais de Minnesota estão entre os menos solidários do país, oferecendo menos assistência financeira como porcentagem de seus orçamentos operacionais do que quase todos os outros estados, incluindo Illinois, Iowa, Nevada e Texas.
A análise se baseou em uma revisão detalhada dos programas de cuidados de caridade de todos os hospitais do estado, além de dados financeiros de cinco anos e dezenas de entrevistas com pacientes, executivos hospitalares e autoridades estaduais.
Comparação nacional: Minnesota gasta menos que a média
Nos Estados Unidos, hospitais gastam em média cerca de 2,4% de seus orçamentos operacionais com cuidados de caridade, segundo dados federais compilados pelo pesquisador Hossein Zare, da Universidade Johns Hopkins. Em Minnesota, a média é de apenas um terço disso.
Dos 123 hospitais gerais do estado, 62 destinaram menos de 0,5% de seus orçamentos para cuidados de caridade entre 2020 e 2024, aponta a investigação. Alguns gastam ainda menos. O St. Cloud Hospital, principal unidade do CentraCare, aplicou menos de 0,25% de seu orçamento no período — o equivalente a US$ 25 em ajuda a pacientes para cada US$ 10 mil gastos em operações.
Sistema falha e ônus recai sobre os mais vulneráveis
“O sistema não está funcionando, e o peso está caindo sobre quem menos pode suportá-lo”, afirmou Erin Hartung, diretora de serviços jurídicos da Cancer Legal Care, organização sem fins lucrativos que auxilia pacientes com dívidas médicas e outros desafios financeiros em Minnesota.
Os cuidados de caridade devem se tornar ainda mais essenciais nos próximos anos, à medida que mais moradores de Minnesota perdem cobertura de saúde ou não conseguem arcar com coparticipações e franquias cada vez mais altas. A taxa de pessoas sem seguro no estado aumentou fortemente no ano passado, atingindo o maior nível desde 2017, e deve subir ainda mais devido a cortes orçamentários propostos pelo ex-presidente Donald Trump, que forçam estados a reduzir programas como o Medicaid e outras redes de segurança social.