Medo e políticas federais afastam imigrantes do Medi-Cal na Califórnia
Desde meados de 2024, a comunidade imigrante em San Bernardino, na Califórnia, vive sob forte tensão. María González, agente comunitária de saúde, relata que muitos imigrantes — especialmente aqueles sem documentos — evitam até mesmo sair de casa para tarefas simples, como regar plantas. A situação piorou após anúncios de batidas policiais, propostas do governo Trump para compartilhar dados do Medicaid com o ICE e a implementação de restrições estaduais e federais ao acesso de imigrantes a benefícios públicos.
Em novembro, o governo federal lançou uma nova proposta de regra de 'carga pública', que, se aprovada, poderia barrar a obtenção de residência permanente para imigrantes que tenham usado benefícios públicos, como o Medi-Cal, mesmo que sejam cidadãos norte-americanos ou residentes legais. Embora muitos ainda tenham direito ao programa — que atende mais de 14 milhões de pessoas de baixa renda ou com deficiência na Califórnia —, o medo tem levado ao abandono ou não renovação do benefício.
Queda recorde nos registros
Dados analisados pela KFF Health News mostram que, entre junho e dezembro de 2024, quase 100 mil imigrantes sem documentos deixaram o Medi-Cal. Eles representam cerca de 25% das desistências no período, embora constituam apenas 11% dos inscritos. Até julho de 2024, o número de inscritos nesse grupo vinha crescendo desde janeiro de 2024, quando a Califórnia abriu o Medi-Cal para todos os residentes de baixa renda, independentemente do status migratório.
Tessa Outhyse, porta-voz do Departamento de Serviços de Saúde da Califórnia, responsável pelo Medi-Cal, atribui a queda principalmente ao retomada das verificações de elegibilidade, suspensas durante a pandemia. No entanto, dois pesquisadores — Leonardo Cuello, da Universidade Georgetown, e Susan Babey, da UCLA — contestam essa explicação. Segundo eles, a maioria dos estados, incluindo a Califórnia, já havia retomado as verificações até meados de 2024. Portanto, outro fator deve estar impulsionando a queda.
"O que mudou foram as políticas federais recentes, como o One Big Beautiful Bill Act e ordens executivas que restringem o acesso a benefícios. Isso está gerando um clima de insegurança que afasta as pessoas do sistema."
Pesquisas revelam evitação de programas sociais
Uma pesquisa da KFF/New York Times identificou que adultos imigrantes, especialmente pais, estão evitando programas governamentais de auxílio — como alimentação, moradia e saúde — com medo de chamar atenção para seu status migratório ou de familiares. O problema é ainda mais grave quando se considera que 1 em cada 4 crianças nos EUA tem um pai imigrante, a maioria delas nascidas no país.
Cuello destaca que a evitação desses programas pode ter consequências graves para a saúde e o bem-estar das famílias imigrantes, mesmo aquelas com status legal. "Isso afeta não só os imigrantes sem documentos, mas também residentes legais e cidadãos naturalizados", afirmou.
Impacto além da Califórnia
Embora a queda nos registros do Medi-Cal seja mais acentuada na Califórnia, especialistas alertam que o fenômeno pode se repetir em outros estados com grandes populações imigrantes. A combinação de medo, políticas restritivas e desinformação está criando um cenário preocupante para o acesso à saúde pública nos EUA.
Enquanto o governo federal não revê suas políticas, agentes comunitários como María González seguem trabalhando para conscientizar os imigrantes sobre seus direitos e os riscos de abandonar programas essenciais. "Eles precisam saber que têm direito ao Medi-Cal, mesmo que não tenham documentos", disse ela. "Mas, hoje, o medo fala mais alto."