A crença como o terceiro vértice da motivação

O poder do mindset é inegável, especialmente para empreendedores. Construir um negócio do zero exige não apenas planejamento, mas também uma profunda reflexão sobre si mesmo: Por que penso assim sobre isso? Essa jornada leva à autoanálise, ao questionamento de suposições e à necessidade de fortalecer a vida interior de maneiras que sequer imaginávamos no início.

Ao conversar com Nir Eyal, autor do best-seller Beyond Belief (Além da Crença, em tradução livre), a expectativa era de uma discussão enriquecedora. O que encontrei foi uma verdadeira revolução de perspectiva: um novo vocabulário e embasamento científico para algo que eu já fazia intuitivamente — evoluir meu próprio sistema de crenças.

Mesmo que você não esteja trabalhando ativamente nesse processo, a tese central de Eyal é clara: suas crenças não são verdades absolutas. Elas são ferramentas. E essa distinção muda tudo.

A descoberta que mudou a trajetória de Eyal

Após cinco anos de pesquisa e lançamento de Indistractable — um guia meticuloso sobre como gerenciar a atenção —, Eyal percebeu um padrão preocupante entre seus leitores. Muitas pessoas haviam absorvido cada palavra do livro, mas não colocavam em prática nenhum dos ensinamentos.

“Eles esperavam meses para falar comigo. Quando pedi que me explicassem o que não havia funcionado, a resposta era sempre a mesma: ‘Li o primeiro passo. Só não fiz’”, contou Eyal. Essa constatação o levou a uma reflexão honesta sobre si mesmo: “Tenho livros na minha estante que já li e nunca coloquei em prática”.

Esse momento de autocrítica impulsionou Eyal e sua esposa, Julie Lee, a seis anos de pesquisa, resultando no livro Beyond Belief. A obra propõe uma tese simples, mas poderosa: a motivação não é uma linha reta entre o que queremos e o que fazemos. Na verdade, é um triângulo, e o terceiro vértice — muitas vezes ignorado — é a crença.

Comportamento, benefício e crença: o que falta na equação?

Segundo Eyal, hoje temos acesso ilimitado a informações. Em uma era de inteligência artificial e tutoriais 24 horas, o conhecimento não é mais o problema.

“Você pode saber exatamente o que fazer, desejar o benefício, e ainda assim não agir”, explica Eyal. “O que está faltando é a crença.”

Mas o que são, afinal, as crenças? Para Eyal, elas não são fatos nem fé. Um fato é objetivo e imutável — como a Terra não ser plana, independentemente do que se acredite. A fé, por sua vez, é uma convicção que não depende de evidências e raramente muda.

As crenças, no entanto, ocupam um terreno fértil e maleável: são convicções abertas à revisão com base em novas evidências. Essa flexibilidade é justamente o que as torna tão poderosas.

“Crenças são ferramentas, não verdades.” — Nir Eyal

Como um carpinteiro que usa apenas um martelo porque ele já funcionou uma vez, carregamos crenças limitantes que, em algum momento, nos protegeram, mas hoje já não nos servem mais.

Cultura organizacional: crenças codificadas

Para líderes, as implicações são imediatas. Eyal cita o mantra “Dia 1” da Amazon como um exemplo de como as crenças podem ser projetadas em uma organização. Funcionários em todos os níveis são incentivados a agir com a mentalidade de uma startup, independentemente do tamanho da empresa.

Essa cultura não é acidental. É resultado de um design intencional de crenças que orientam ações e decisões diárias. Quando uma organização cultiva crenças alinhadas aos seus objetivos, o comportamento dos colaboradores reflete essa mentalidade.

Como aplicar essa ideia no dia a dia?

  • Identifique crenças limitantes: Pergunte-se quais convicções estão impedindo você de agir. Por exemplo, “Eu não sou bom o suficiente” ou “Isso nunca vai funcionar”.
  • Reavalie com base em evidências: Analise se essas crenças ainda são válidas. O que mudou desde que você as adotou?
  • Substitua por crenças fortalecedoras: Transforme “Eu não consigo” em “Eu ainda não consegui, mas posso aprender”.
  • Crie um ambiente que incentive a mudança: Para líderes, é fundamental promover uma cultura que valorize a evolução pessoal e a adaptação.

Conclusão: crenças como alavancas de transformação

A motivação não é um processo linear. Ela depende de três elementos: o que você quer fazer (comportamento), por que você quer fazer (benefício) e, acima de tudo, se você acredita que é possível.

Reconhecer o papel das crenças é o primeiro passo para quebrar ciclos de procrastinação e inação. Como Eyal demonstrou, quando transformamos nossas crenças em ferramentas — e não em dogmas —, abrimos caminho para resultados extraordinários.