A nova política de saúde dos Estados Unidos, que recomenda a aplicação da vacina contra a hepatite B apenas ao nascer para bebês considerados de alto risco de infecção neonatal, pode ter consequências graves. Segundo dois estudos publicados na última segunda-feira, a medida pode levar a um aumento no número de recém-nascidos infectados e mais casos de hepatite B crônica na infância, gerando milhões de dólares em custos adicionais para o sistema de saúde.
Um dos estudos, conduzido por pesquisadores da Universidade de Boston, da Universidade da Flórida e da Universidade Johns Hopkins, destaca que evitar o crescimento das infecções neonatais sob essa nova recomendação exigiria níveis historicamente não alcançados de triagem materna ou cobertura vacinal ao nascer entre bebês de mães não rastreadas.
Os pesquisadores enfatizam que a hepatite B neonatal é uma condição grave, que pode evoluir para doenças crônicas do fígado, como cirrose e câncer hepático, em fases posteriores da vida. A vacinação universal ao nascer é atualmente a principal estratégia para prevenir a transmissão vertical — quando a mãe infectada transmite o vírus ao bebê durante o parto.
Segundo os especialistas, a nova política contrasta com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outros países, que mantêm a recomendação de vacinação imediata após o nascimento para todos os recém-nascidos, independentemente do histórico materno. A OMS alerta que a hepatite B afeta cerca de 296 milhões de pessoas em todo o mundo e causa aproximadamente 820 mil mortes anualmente, principalmente por complicações como câncer de fígado e cirrose.
Os estudos reforçam a importância da prevenção precoce e destacam que a restrição da vacinação pode comprometer décadas de progresso no controle da doença. Além disso, os custos adicionais com tratamentos e internações decorrentes do aumento de casos crônicos podem sobrecarregar ainda mais os sistemas de saúde.
"A vacinação ao nascer é uma das intervenções mais custo-efetivas em saúde pública. Reduzir sua aplicação sem garantir uma triagem materna universal coloca em risco não apenas a saúde infantil, mas também a sustentabilidade dos sistemas de saúde."
— Dr. William Schaffner, especialista em doenças infecciosas e coautor do estudo.
Os pesquisadores também alertam que a nova política pode aumentar as desigualdades no acesso à saúde, uma vez que famílias de baixa renda ou em regiões com menor infraestrutura médica podem ser as mais afetadas pela falta de triagem materna adequada.
Diante dos resultados, os especialistas pedem uma revisão urgente da recomendação e reforçam a necessidade de campanhas de conscientização sobre a importância da vacinação universal ao nascer. Eles destacam que, sem uma mudança de rumo, os Estados Unidos podem enfrentar um retrocesso na luta contra a hepatite B, com consequências duradouras para a saúde pública.