Broadway decepciona com 'Os Garotos Perdidos'
Lançar um novo musical sobre vampiros em 2024 não é tarefa fácil, especialmente quando um revival de meio século atrás, como The Rocky Horror Show, rouba a cena com sua energia contagiante. Um dos grandes atrativos de Frank-N-Furter, personagem icônico de The Rocky Horror Show, foi sua representação de um vampiro assumidamente bissexual, desafiando os padrões da época. Até mesmo Drácula, de Bram Stoker (1897), traz subtextos homoeróticos na relação entre o conde e Jonathan Harker, enquanto as três vampiras do castelo servem apenas como fachada para suas preferências.
Frank-N-Furter, no entanto, não esconde sua orientação: ele cria um parceiro, Rocky, e não uma noiva, e sua sedução por Janet é apenas uma estratégia para se aproximar de Brad. Nesse contexto, estreia Os Garotos Perdidos, o novo musical de vampiros que estreou no domingo no Palace Theatre. A coincidência não poderia ser pior: poucos dias antes, um revival divertido e eletrizante de The Rocky Horror Show chegou à Broadway.
Dois vampiros protagonistas e uma trama que não surpreende
Se você não conhece o filme de 1987, que inspirou o musical, esta crítica respeitará sua ignorância e não revelará os grandes segredos da trama. Na versão teatral, David (Ali Louis Bourzgui) é apresentado desde o início como um vampiro sedento por sangue, com uma aparência que lembra Kiefer Sutherland — inclusive os cabelos loiros descoloridos. Embora lidere uma banda de rock com outros três vampiros masculinos (todos compartilhando um esconderijo em uma antiga fábrica), os roteiristas David Hornsby e Chris Hoch optaram por dar a David uma namorada, Star (Maria Wirries), como fachada.
A estratégia é clara: Star é usada para aproximar David de Michael (LJ Benet), o novo garoto da cidade. Michael chega à cidade com sua mãe, Lucy (Shoshana Bean), e o irmão mais novo, Sam (Benjamin Pajak), após fugirem de um pai abusivo (Ben Crawford). Enquanto no filme a mãe (Dianne Wiest) é divorciada, no musical ela é apresentada como parte de uma família em fuga, o que adiciona tensão e isolamento à trama. Essa dinâmica familiar alimenta algumas das melhores canções do espetáculo.
Canções fortes e momentos fracos
Michael canta "Belong to Someone" quando considera se juntar ao grupo de vampiros de David. Sua mãe, por sua vez, entoa "Wild" em um momento de nostalgia, relembrando a vida antes do ex-marido. Tanto Benet quanto Bean entregam performances vocais impressionantes, e, felizmente, ambas as canções são memoráveis. As músicas são assinadas por The Rescues, uma banda de rock de Los Angeles que já compôs trilhas para séries como Grey's Anatomy.
Embora The Rescues (Kyler England, Adrianne "AG" Gonzalez e Gabriel Mann) façam uma estreia promissora na Broadway, nem todas as canções do musical são bem-sucedidas. A música solo de Star, "War", é um exemplo de como uma balada de poder feminino pode soar forçada quando empurrada para um enredo de guerra. Wirries, como Star, acaba se tornando a personagem mais irritante da trama, merecendo até mesmo a atenção de Michael, que oscila entre raiva e angústia.
Apesar de alguns acertos, Os Garotos Perdidos não consegue se destacar em um cenário já dominado por produções consagradas como The Rocky Horror Show. O musical perde força ao tentar equilibrar drama familiar e fantasia sombria, resultando em um espetáculo que, embora não seja ruim, decepciona em comparação aos clássicos do gênero.