Quem já passou por uma mesa de negociação com designers sabe: quando alguém começa a questionar se deve deixar o emprego atual, raramente falta oportunidade — falta, na verdade, permissão. E, na maioria das vezes, essa permissão está sendo retida por uma história repetida tantas vezes que se tornou tão comum quanto falar do clima.

Não se trata de um medo que pode ser nomeado ou contestado. O que descrevo aqui é diferente: um ruído de fundo que transforma a decisão de ficar em sabedoria e a de ir embora em irresponsabilidade. Ele aparece nas conversas sobre prazos, preparo e gratidão. E, quase sem exceção, é aprendido.

Os roteiros que mais escuto não são aleatórios — são específicos. Eles são reforçados pela cultura da performance, pela mitologia do LinkedIn e pela forma como as organizações de UX recompensam a conformidade. Depois de anos ajudando profissionais de UX em transições, deixei de me surpreender com essas histórias e passei a me indignar em nome daqueles que as carregam.

Vamos aos três principais mitos de carreira que mantêm designers presos:

1. “Só mais um ano”

Essa frase é sedutora porque não soa como evasão — soa como estratégia. Ela vem com um número, o que dá a impressão de um plano. Mas observe o que acontece com esse plano. Na maioria das vezes, “mais um ano” se torna dependente de uma promoção. A promoção chega, mas vem uma reestruturação, e agora há mais uma iniciativa importante em que a pessoa é necessária. Quando o projeto termina e a economia muda, de repente “não é a hora certa” de sair. Três anos se passam, e a meta continua se movendo — de forma tão gradual que quase não é percebida.

Já vi designers perderem anos de suas vidas profissionais por causa dessa única frase. Ela soa razoável e fala a linguagem da paciência e da responsabilidade. Mas, além dos anos perdidos, há algo mais grave: a perda da confiança em sua própria capacidade de avaliar uma situação. Cada vez que você decide que ainda não está pronto, está treinando a crença de que não é capaz de julgar sua própria vida. Você está apagando o instinto que, ironicamente, é o mesmo que faz você bom no que faz.

Costumo incentivar meus clientes a fazerem duas perguntas:

  • O que você está realmente esperando?
  • Quem decide quando essa condição será cumprida?

2. “Preciso de mais experiência”

Esse mito surge da lacuna entre o que você já realizou e o que foi ensinado a acreditar que conta como experiência legítima. Vejo isso com frequência em designers de origens marginalizadas, mulheres e profissionais de primeira geração, que cresceram aprendendo que credenciais são o preço para ocupar espaço. A lógica é simples: se você não está pronto, não falhou — então, não há risco.

O problema é que essa mentalidade mantém as pessoas em um ciclo de preparação eterna. A experiência nunca é suficiente porque o padrão é sempre elevado. O mercado muda, as expectativas mudam, mas a crença de que “não é o momento” permanece. Enquanto isso, oportunidades passam, e a sensação de estar sempre um passo atrás se intensifica.

Para quebrar esse ciclo, é preciso questionar: experiência suficiente para quem? Muitas vezes, o que falta não é tempo no mercado, mas confiança para assumir o protagonismo da própria carreira.

3. “Sou grato por ter um emprego”

Esse é um dos mais perigosos, porque se disfarça de gratidão. Em um mercado incerto, é natural valorizar a segurança de um salário. No entanto, quando a gratidão se torna um escudo para evitar mudanças, ela se transforma em uma prisão.

Muitos designers permanecem em empregos que não os realizam por medo de “desagradecer” a empresa ou a equipe. Eles se apegam à ideia de que, por terem sido acolhidos em um momento difícil, devem lealdade eterna. Mas a lealdade não deve ser confundida com sacrifício constante.

O problema é que, ao priorizar a gratidão acima de tudo, você abre mão de oportunidades que poderiam alavancar sua carreira. Em vez de se tornar um refém da dívida emocional, é preciso equilibrar gratidão com autovalorização. Pergunte-se: até quando a gratidão deve ditar minhas escolhas profissionais?

Esses três mitos não são apenas desculpas — são narrativas que sabotam carreiras sem que as pessoas percebam. Eles são reforçados por sistemas que premiam a conformidade e punem a ambição. Quebrá-los exige autoconhecimento, coragem para questionar padrões e, acima de tudo, permissão para si mesmo.

“A carreira não é um currículo a ser preenchido, mas uma vida a ser vivida.” — Autor desconhecido