Cenário político nos EUA: aborto retorna como tema explosivo
A política de aborto nos Estados Unidos, que parecia ter perdido força após a decisão da Suprema Corte que derrubou o direito federal ao aborto em 2022, volta a ganhar destaque. A questão pode se tornar um novo ponto de tensão para Donald Trump, que evitou o tema durante sua campanha e governo.
O estopim é uma decisão judicial recente que questiona a distribuição de mifepristona — um dos medicamentos usados em abortos medicamentosos — por correio, sem necessidade de consulta presencial. A política, implementada durante o governo Biden, permitia que mulheres em estados com leis restritivas tivessem acesso ao procedimento de forma discreta e remota.
O que diz a decisão judicial?
Na semana passada, um tribunal federal de apelações em Nova Orleans, atendendo a um processo movido pelo estado da Louisiana, decidiu por unanimidade que a autorização da FDA (agência reguladora de medicamentos dos EUA) para a distribuição de mifepristona por telemedicina e correio violava o direito do estado de regular o aborto em seu território.
A decisão, se mantida, poderia criar um cenário de caos imediato, segundo os fabricantes dos medicamentos, Danco e GenBioPro. Isso porque a mifepristona é usada há anos e sua distribuição atual estaria ameaçada. No entanto, a Suprema Corte dos EUA suspendeu temporariamente a decisão para permitir que as partes recorram.
Trump entre a cruz e a espada
O ex-presidente Donald Trump, que nunca demonstrou interesse pessoal em políticas de aborto, se viu novamente pressionado pelo tema. Durante sua campanha e governo, ele evitou tomar posições firmes, chegando a abandonar o movimento pró-vida em 2024. Agora, a questão pode voltar a assombrá-lo.
Sua administração tem feito de tudo para adiar uma decisão definitiva sobre o tema. Em setembro do ano passado, após pressão de procuradores-gerais republicanos, o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., anunciou que a FDA revisaria a autorização do medicamento. No entanto, a revisão segue em andamento, e o governo Trump tem pedido constantemente aos tribunais que adiem julgamentos até que o processo seja concluído.
O receio de Trump é claro: o tema do aborto pode se tornar um problema político em ano eleitoral, especialmente se a Suprema Corte decidir pela manutenção da proibição à distribuição de mifepristona por correio. Isso poderia reacender a mobilização de eleitores progressistas, que fizeram do tema uma bandeira em 2022 e 2024.
"A política de aborto nos EUA está longe de ser resolvida. Trump, que sempre evitou o tema, pode ser novamente arrastado para o debate, seja pela Justiça ou pela pressão de seu próprio partido."
Impacto para as eleições de 2024
Grupos de direitos reprodutivos veem o cenário com apreensão. A decisão da Louisiana e a possível revisão da FDA podem redefinir o acesso ao aborto nos EUA, especialmente em estados com leis restritivas. Se a Suprema Corte confirmar a decisão do tribunal de apelações, milhões de mulheres perderiam uma das poucas opções disponíveis para interromper uma gravidez legalmente.
Para Trump, o risco é duplo: perder apoio de eleitores moderados, que podem se afastar de um candidato visto como indiferente ao tema, e reacender a mobilização democrata, que usou o aborto como principal bandeira nas eleições de meio de mandato em 2022.
Enquanto a Justiça não decide, o governo Trump segue na corda bamba, tentando equilibrar pressões internas do Partido Republicano e o risco de alienar parte do eleitorado.