O álcool como maior ameaça à saúde pública nos EUA

Nos Estados Unidos, o álcool é a substância psicoativa mais consumida e, ao mesmo tempo, a mais prejudicial. Ele mata quase 500 americanos por dia e, em um ano típico, causa mais mortes do que todas as doenças infecciosas combinadas. Fabricado tanto no exterior quanto domesticamente, o produto é distribuído por poderosas organizações multinacionais, cujos promotores muitas vezes ignoram seus efeitos viciantes e destrutivos.

Por décadas — ou séculos — o álcool tem destruído vidas, desestabilizado famílias, prejudicado a economia e causado milhões de mortes. No entanto, apesar de sua onipresença na sociedade americana, ele não é tratado como uma emergência de saúde pública. Embora muitos consumidores não enfrentem problemas, a substância está ligada a uma série de doenças graves, como câncer, doenças cardíacas, derrames, declínio cognitivo, distúrbios do desenvolvimento, violência armada, lesões e acidentes.

O impacto crescente do consumo excessivo

Nos últimos anos, os danos relacionados ao álcool têm aumentado significativamente. Desde 2020, o problema tem se agravado, afetando especialmente idosos, mulheres e jovens. Um dos sinais mais alarmantes é o aumento expressivo de mortes por doenças hepáticas.

Dados recentes revelam que as visitas a departamentos de emergência por causas relacionadas ao álcool quase dobraram entre 2003 e 2022 nos EUA. Para quem desenvolve dependência, o álcool é ‘um veneno absoluto’, segundo a médica Jenny Wilson, especialista em emergências em Reno, Nevada. Ela testemunha diariamente os efeitos devastadores do consumo excessivo em seus pacientes.

Um fracasso histórico de saúde pública

Uma investigação da STAT revela que a atual epidemia de álcool nos EUA é resultado de um fracasso coletivo dos sistemas médico, de saúde pública, da indústria e do governo. Além disso, a administração Trump está perdendo uma oportunidade única de combater o problema.

Líderes políticos, incluindo aqueles ligados ao movimento ‘Make America Healthy Again’, liderado pelo secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., têm ignorado os danos causados pelo álcool. Até mesmo os custos econômicos do consumo excessivo — que superam US$ 240 bilhões anuais, mais do que toda a dívida médica dos americanos — são negligenciados.

A receita de impostos sobre o álcool, por outro lado, tem diminuído há décadas, enquanto o custo de vida e a inflação aumentam. As administrações presidenciais anteriores pouco fizeram para reduzir os malefícios do álcool. Desde a campanha ‘Just Say No’ da era Reagan até a política de drogas do governo Obama, os esforços federais se concentraram em substâncias ilícitas, como crack, heroína e maconha.

O álcool na agenda política: um breve momento de atenção

Em janeiro de 2025, pouco antes da posse de Donald Trump, o então cirurgião-geral Vivek Murthy, nomeado durante o governo Biden, publicou um relatório destacando a relação entre álcool e câncer. No entanto, a administração Trump retomou a abordagem tradicional, com alguns privilégios adicionais para a poderosa indústria do álcool.

Curiosamente, dois dos líderes mais afetados pelo problema são justamente aqueles que poderiam liderar mudanças: Robert F. Kennedy Jr. e Donald Trump. O irmão mais velho de Trump, Fred Jr., morreu aos 42 anos devido a um ataque cardíaco causado pelo alcoolismo, uma perda que o presidente diz ter feito dele um abstêmio.

"O álcool é um veneno absoluto para quem desenvolve dependência. Seus efeitos são devastadores e aparecem todos os dias nos nossos hospitais."
— Jenny Wilson, médica de emergência em Reno, Nevada