O debate sobre o impacto dos computadores quânticos no Bitcoin ganhou novo fôlego após pesquisas recentes demonstrarem que a quebra da criptografia de chaves públicas do Bitcoin pode ser viável em um futuro próximo. Enquanto a comunidade técnica discute soluções como migração de endereços e atualizações de protocolo, a questão jurídica permanece: se alguém usar um computador quântico para derivar uma chave privada e transferir bitcoins de carteiras inativas, isso configura recuperação de propriedade abandonada ou roubo?

O risco real e os endereços expostos

Nem todos os bitcoins estão igualmente vulneráveis. A maioria dos endereços modernos não revela a chave pública até que o proprietário realize uma transação. No entanto, existem categorias específicas de saídas que já expõem chaves públicas:

  • Saídas pay-to-public-key (P2PK): Endereços antigos que revelam a chave pública completa na blockchain.
  • Construções de script antigas: Alguns scripts antigos também expõem chaves públicas.
  • Saídas Taproot (P2TR): Endereços que comprometem diretamente uma chave pública de 32 bytes.
  • Reutilização de endereços: Quando um usuário gasta de um endereço e deixa fundos sob a mesma chave, a chave pública é exposta.

Em março de 2026, pesquisadores da Google Quantum AI publicaram um estudo demonstrando que a curva secp256k1 do Bitcoin poderia ser quebrada com menos de 500 mil qubits físicos — uma redução de vinte vezes em relação a estimativas anteriores, que apontavam para cerca de nove milhões de qubits. O estudo também modelou vetores de ataque diretos à mempool, destacando a urgência do problema.

A questão jurídica: recuperação ou roubo?

O cerne do debate não é apenas técnico, mas jurídico. Segundo especialistas em direito de propriedade clássico, se um indivíduo usar um computador quântico para derivar uma chave privada e transferir bitcoins de uma carteira inativa, a ação seria considerada roubo, não recuperação de propriedade abandonada. Isso ocorre porque, embora o Bitcoin seja um sistema baseado em controle (e não em títulos formais), a lei tradicional não reconhece a ausência de atividade como abandono de propriedade.

"A lei é clara: bitcoins antigos não se tornam propriedade sem dono simplesmente por estarem inativos. Se alguém obtiver acesso a uma chave privada e transferir fundos, isso constitui apropriação indébita, não recuperação legítima."

— Especialista em direito digital, citado em análise da Bitcoin Magazine

BIP-361 e o debate sobre congelamento de fundos

Em abril de 2026, a proposta BIP-361 sugeriu o congelamento de mais de 6,5 milhões de bitcoins armazenados em saídas vulneráveis a ataques quânticos, incluindo mais de um milhão de moedas associadas ao pseudônimo Satoshi Nakamoto. A proposta desencadeou um intenso debate sobre propriedade, confisco e o significado de posse em um sistema que, em última instância, só reconhece controle.

Enquanto a comunidade técnica trabalha em soluções como migração de endereços, regras de rotação de chaves e soft forks, a questão jurídica permanece: como os tribunais interpretarão transações realizadas com chaves derivadas por computadores quânticos? A resposta pode definir não apenas o futuro do Bitcoin, mas também a segurança de todos os ativos digitais baseados em criptografia.

O que diz a lei tradicional?

A lei de propriedade clássica baseia-se em dois princípios fundamentais:

  • Presunção de posse: A posse prolongada de um ativo não implica abandono, a menos que haja evidência clara de intenção de desistência.
  • Proteção contra apropriação indébita: Qualquer transferência não autorizada de propriedade é considerada roubo, independentemente da tecnologia utilizada para obtê-la.

No contexto do Bitcoin, embora o protocolo não exija títulos formais, os tribunais tendem a aplicar a lei tradicional. Isso significa que, mesmo que um atacante consiga derivar uma chave privada por meio de computação quântica, a transferência de fundos seria considerada ilegal.

Implicações para investidores e usuários

O risco quântico não é apenas uma ameaça teórica. Com a redução significativa no número de qubits necessários para quebrar a criptografia do Bitcoin, a janela de vulnerabilidade está se fechando. Usuários e investidores devem considerar medidas proativas, como:

  • Migração para endereços modernos: Utilizar endereços que não exponham chaves públicas, como os baseados em Taproot ou segWit.
  • Rotação periódica de chaves: Atualizar chaves privadas regularmente para reduzir o risco de exposição.
  • Monitoramento de carteiras inativas: Identificar e proteger fundos armazenados em endereços antigos ou vulneráveis.
  • Acompanhamento de atualizações de protocolo: Participar de discussões sobre propostas como a BIP-361 e apoiar soluções que mitiguem o risco quântico.

Embora o debate sobre o timing exato da chegada de computadores quânticos capazes de atacar o Bitcoin ainda seja especulativo, a discussão jurídica e técnica já está em andamento. A intersecção entre inovação tecnológica e direito tradicional definirá não apenas o futuro do Bitcoin, mas também o paradigma de segurança para todos os ativos digitais.