O cinema sempre foi uma ferramenta poderosa para moldar a percepção da realidade. Desde os primórdios da sétima arte, imagens em movimento têm o poder de convencer o público de que o que vê é verdade — uma característica explorada até mesmo em obras distópicas como 1984, de George Orwell, onde o controle da informação é sinônimo de poder absoluto.
Como observa o historiador Thomas Doherty em seu livro How Film Became History, o cinema, antes do surgimento das redes sociais algorítmicas, era o instrumento definitivo de propaganda. Em regimes autoritários, como a Rússia soviética, imagens do passado eram manipuladas para ensinar doutrinas revolucionárias, divinizar líderes como Lenin e Stalin, e reescrever a história conforme os interesses do presente.
Essa capacidade de reescrever — ou até apagar — os erros do passado é fundamental para entender a existência do filme Michael, estrelado por Jaafar Jackson no papel de Michael Jackson. Segundo relatos do jornalista Matthew Belloni, da Puck, a produção, que contou com o apoio da família Jackson, passou por uma reformulação radical após a constatação de que não poderia dramatizar as acusações de abuso sexual contra o cantor, feitas pelo então adolescente Jordan Chandler em 1993.
O roteiro original, conforme descrito por Belloni em janeiro de 2025, começava e terminava durante a investigação de 1993, retratando Jackson como vítima ingênua de uma família interessada em dinheiro. As alegações infundadas de Chandler teriam levado Jackson a sofrer perseguição e humilhação até um acordo de US$ 20 milhões, arruinando sua reputação.
Diante da impossibilidade de lançar um filme com essa narrativa, os produtores Graham King (Bohemian Rhapsody) e John Branca — advogado de Michael Jackson na vida real — junto ao diretor Antoine Fuqua (Dias de Treinamento), tiveram que recriar a obra. O resultado é um produto estranho, que perdeu quase toda a tensão dramática.
O que sobrou é uma biografia que se concentra na ascensão do artista, envolta em um brilho angelical e uma inocência infantil. Um retrato que, apesar de tudo, ainda consegue cativar o público, fazendo com que muitos sintam vontade de dançar na cadeira. Afinal, por mais polêmicas que cercam a vida de Michael Jackson, sua influência como ícone da música é inegável.