Nova realidade política impulsiona democratas a agir
A decisão da Suprema Corte desta semana, que enfraqueceu o Voting Rights Act, eliminou parte da resistência democrata que impedia redistritamentos extremos em vários estados durante este ciclo eleitoral. Especialistas e legisladores ouvidos pela Axios indicam que a nova conjuntura pode colocar estados tradicionalmente azuis e até roxos (purple states) na mira dos democratas para 2028.
Mais de 20 parlamentares federais e estaduais do Partido Democrata relataram à Axios que, mesmo aqueles que antes resistiam ao tema, agora estão reconsiderando a estratégia. A mudança de postura foi impulsionada pela decisão judicial de quarta-feira (12).
Estados-alvo já começam a ser mapeados
O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries (D-N.Y.), citou em entrevista à Politico os estados de Nova York, Illinois, Colorado e Maryland como possíveis alvos iniciais. No entanto, a lista pode se expandir significativamente.
Pete Aguilar (D-Calif.), presidente do caucus democrata na Câmara, afirmou à Axios que a Califórnia, seu estado natal, deve revisitar o tema após concluir o novo mapa para 2026. "Veremos o que os estados do Sul farão até 2028, quando a Califórnia responderá da mesma forma que fizemos ao Texas", declarou. "Não vamos recuar de uma batalha."
Aguilar também mencionou Washington e Oregon como possibilidades, embora reconheça que seriam empreitadas difíceis. Mesmo assim, a decisão da Suprema Corte alterou significativamente os cálculos do partido.
Casos específicos: Maryland e Illinois na linha de frente
Maryland: projeto de lei aguarda decisão do Senado
Em fevereiro, a Câmara de Delegados de Maryland aprovou um projeto de lei que transformaria o atual mapa congressional de 8-1 a favor dos democratas em um 9-0. No entanto, o presidente do Senado estadual, Bill Ferguson, recusou-se a levar a proposta à votação.
Glenn Ivey (D-Md.) afirmou à Axios que "a grande maioria das pessoas em Maryland queria seguir em frente" e que "os que se opuseram devem ter recebido a mensagem da Suprema Corte na quarta-feira sobre a urgência do tema".
Jamie Raskin (D-Md.) complementou: "Haverá um sentimento esmagador agora para que Maryland se junte à Virgínia e à Califórnia".
Entre os bastidores, um delegado estadual, que pediu anonimato, declarou: "Vamos ver se [Ferguson] perde a reeleição... Ele foi o obstáculo". A disputa primária de Ferguson contra o influenciador digital e empresário Bobby LaPin deve ser acirrada, segundo o parlamentar.
Ferguson não respondeu a pedidos de comentário por e-mail. Um terceiro deputado democrata de Maryland, também ouvido pela Axios, expressou preocupação com a Suprema Corte estadual — dominada por nomeações republicanas — mas afirmou que "veremos se isso será suficiente para impedir o estado de reconsiderar".
Illinois: pressão por ação aumenta
La Shawn Ford, deputado estadual de Illinois e candidato pelo 7º distrito congressional nas eleições de novembro, foi um dos membros da bancada negra que se opôs ao projeto de redistritamento do governador JB Pritzker no ano passado. Agora, ele mudou de posição.
Em entrevista à Axios, Ford declarou: "Não podemos simplesmente ficar de braços cruzados enquanto republicanos e os tribunais erodem a proteção dos direitos do eleitor e não fazemos nada. Isso nos coloca em uma situação em que temos que encontrar uma nova forma de agir".
Outro deputado democrata de Illinois, que preferiu não se identificar, afirmou à Axios que o partido está avaliando "todas as opções" para garantir representação justa, especialmente em regiões com populações minoritárias.
Impacto da decisão da Suprema Corte
A decisão da Suprema Corte, que limitou a aplicação do Voting Rights Act, foi vista como um divisor de águas. Especialistas em direito eleitoral apontam que a medida pode facilitar redistritamentos partidários em estados onde os democratas têm maioria legislativa, mas enfrentam resistência em cortes estaduais dominadas por republicanos.
Analistas políticos destacam que a estratégia de redistritamento não é nova, mas a janela de oportunidade aberta pela Suprema Corte pode acelerar o processo. "Estes não são tempos normais", afirmou um consultor democrata ouvido pela Axios. "Os partidos estão dispostos a correr riscos para maximizar suas vantagens em 2028."
Próximos passos: o que esperar até 2028
Com a decisão judicial recém-anunciada, os democratas devem apresentar projetos de lei em vários estados ainda este ano. A estratégia inclui:
- Priorizar estados onde já têm maioria legislativa, como Maryland e Illinois;
- Explorar oportunidades em estados roxos, como Colorado e Nova York;
- Avaliar viabilidade em estados tradicionalmente republicanos, como Texas e Flórida, em resposta a possíveis ações dos adversários;
- Monitorar decisões de cortes estaduais, que podem bloquear ou aprovar os novos mapas.
Enquanto isso, republicanos já sinalizam que também devem intensificar seus esforços de redistritamento, especialmente em estados onde controlam o legislativo. A batalha pelos mapas eleitorais para 2028 promete ser uma das mais acirradas das últimas décadas.