O renomado diretor Guillermo del Toro, durante sua participação no Festival de Cannes 2024, fez duras críticas ao uso de tecnologias como a inteligência artificial na produção artística. Em um momento de reflexão sobre a restauração em 4K de seu clássico O Labirinto do Fauno (2006), o cineasta lamentou viver em uma era onde muitos acreditam que "a arte pode ser feita com um aplicativo qualquer".

Del Toro participou do festival após a exibição da nova versão restaurada de seu aclamado filme, que venceu o Oscar de Melhor Fotografia e Direção de Arte. Originalmente lançado em 2006, O Labirinto do Fauno estreou em Cannes com uma ovação de 22 minutos, recorde histórico no festival. Ao relembrar aquele momento, o diretor confessou sua dificuldade em lidar com tamanha admiração: "Foi muito estranho, porque, apesar do meu grande corpo, não estou acostumado com adulação. É muito difícil para mim aceitar o amor". Ele contou que Alfonso Cuarón, presente na ocasião, lhe disse: "Deixe entrar. Deixe o amor entrar".

Sobre a relevância atual do filme, del Toro afirmou: "Infelizmente, vivemos tempos em que este filme se tornou mais pertinente do que nunca, pois nos dizem que tudo é inútil resistir, que a arte pode ser feita com um aplicativo qualquer, e enfrentamos coisas tão formidáveis". Ele continuou: "Mas eu sinto e penso, como a menina Ofélia em O Labirinto do Fauno, que, se pudermos deixar uma marca, se pudermos opor nossa fé à fé e nossa força à força, há esperança".

O cineasta reforçou sua posição contrária ao uso de IA na arte, declarando: "A última coisa que podemos fazer é ceder a uma dessas duas forças: podemos ceder ao amor ou ao medo. Nunca, jamais, cedam ao medo".

Sua crítica à IA não é novidade. Del Toro já havia se manifestado publicamente contra o uso de ferramentas generativas, afirmando em outras ocasiões que "foda-se a IA" e que preferiria "morrer" a utilizá-la em seus projetos.

A restauração de O Labirinto do Fauno, apresentada na seção Cannes Classics deste ano, foi feita a partir do negativo original de 35mm. Durante o evento, o diretor também relembrou os inúmeros desafios enfrentados na produção do filme há duas décadas.

"Fazer este filme vinte anos atrás era como ir contra tudo o tempo todo", declarou. "Foi a segunda pior experiência de minha carreira como cineasta. A primeira foi Mimic, com os Weinsteins. Aquilo foi horrível". Ele detalhou: "Ninguém queria financiá-lo, e, durante as filmagens, tudo o que podia dar errado, dava errado. E, na pós-produção, foi igualmente difícil".

Apesar dos obstáculos, O Labirinto do Fauno é considerado por muitos como a obra-prima de del Toro e um marco do cinema fantástico moderno.

Fonte: The Wrap