Hasan Piker é excepcionalmente hábil em fazer discursos políticos inflamados enquanto joga videogames. Nos anos 1990, isso o tornaria apenas um personagem exaustivo em uma roda de conversa. Hoje, entretanto, o fez um dos comentaristas de esquerda mais influentes dos Estados Unidos, um porta-voz cada vez mais requisitado por candidatos progressistas e um ponto de discórdia nos debates internos do Partido Democrata sobre Israel e "plataformização".

Nos últimos meses, alguns democratas moderados pediram que o partido o afastasse por declarações consideradas antissemitas e ofensivas, como "os EUA mereciam o 11 de Setembro", "o Hamas é mil vezes melhor que Israel" e que judeus ultraortodoxos são "consanguíneos". No entanto, essa campanha de ostracismo não ganhou tração significativa.

Recentemente, o colunista Ezra Klein defendeu Piker contra acusações de antissemitismo, e o podcast Pod Save America, símbolo do liberalismo de resistência, o convidou para uma participação. Até políticos democratas pró-Israel, como Rahm Emanuel e Gavin Newsom, já sugeriram que apareceriam em transmissões ao vivo de Piker. Do ponto de vista político, isso faz sentido: seu público é vasto e alinhado, ao menos parcialmente, aos objetivos básicos do Partido Democrata.

Mas a qualidade de sua própria política é outra questão — e não se resume à legitimidade do antissionismo, como muitos comentaristas sugerem. Piker pode até merecer atenção, mas sua visão de mundo não merece admiração de pessoas esclarecidas.

O que a esquerda enxerga em Piker

Muitos progressistas veem nele um aliado valioso. Candidatos de esquerda o usam como porta-voz, e comentaristas socialistas o elogiam como um crítico corajoso da "opressão israelense aos palestinos, do belicismo dos EUA e da elite democrata que apoia ambos". Segundo essa narrativa, são suas posições intransigentes por igualdade — e não seus comentários infelizes (e já retirados) sobre judeus ortodoxos e o 11 de Setembro — que despertam a ira dos centristas.

Essa defesa contém um grão de verdade: muitos democratas centristas minimizam ou justificam a opressão palestina na Cisjordânia e os massacres em Gaza. No entanto, Piker também comete erros morais semelhantes. Em temas como o comunismo chinês, o imperialismo russo e o terrorismo islamista, seu discurso é tão desprovido de ética quanto aquilo que alega combater: enquanto os jingoístas de Washington relativizam os crimes dos EUA e de Israel, Piker faz o mesmo com os de seus adversários.

O perigo do "campismo" na esquerda

A melhor palavra para definir a ideologia de Piker pode ser "campismo" — uma vertente do progressismo que julga movimentos e regimes estrangeiros não pela aderência a valores progressistas, mas pelo grau de hostilidade que demonstram ao Ocidente. Tal tribalismo é tóxico, seja ele expresso por direitistas ou por esquerdistas.

O problema não é apenas a incoerência de Piker, mas o risco de a esquerda normalizar esse tipo de raciocínio. Se o progressismo aceita que crimes sejam perdoados ou minimizados com base em alianças geopolíticas, ele perde sua autoridade moral — e se aproxima, perigosamente, dos mesmos padrões que critica.

Fonte: Vox