Ativistas de esquerda nos Estados Unidos, historicamente desconfiados de bilionários na política, encontraram um novo campeão surpreendente: o candidato milionário Tom Steyer. O ex-ativista ambiental e gestor de fundos de hedge tem conquistado apoio de setores progressistas em sua campanha para governador da Califórnia, mesmo após investir mais de US$ 132 milhões de seu próprio dinheiro em anúncios.

Steyer não é o único caso. Outros políticos milionários, como o governador de Illinois, JB Pritzker, e o deputado Ro Khanna (Califórnia), também têm atraído atenção da esquerda com agendas progressistas. A tendência levanta questionamentos sobre como a riqueza pessoal influencia a política e se esses candidatos realmente representam os interesses da base ou apenas reforçam o poder das elites.

Por que a esquerda apoia bilionários?

O fenômeno parece contraditório à primeira vista. Afinal, a esquerda americana há anos critica o impacto de megadoadores e bilionários na política, especialmente após a decisão Citizens United de 2010, que ampliou o poder do dinheiro nas eleições. No entanto, candidatos como Steyer têm conseguido angariar apoio de grupos como Our Revolution — organização fundada por ex-membros da campanha de Bernie Sanders em 2016 — e a Associação de Enfermeiros da Califórnia, defensora do sistema único de saúde.

Até mesmo a ala californiana do Socialistas Democráticos da América classificou Steyer como “o mais progressista entre os candidatos viáveis à governadoria”, desencorajando votos de protesto para candidatos mais à esquerda.

Estratégias e críticas

Steyer, que construiu sua fortuna no mercado financeiro, tem usado sua riqueza para inundar o estado com propagandas de sua campanha. Embora suas propostas — como expansão do sistema de saúde pública e impostos sobre grandes fortunas — sejam alinhadas ao progressismo, o paradoxo de um bilionário defendendo pautas anti-elitistas não passa despercebido.

Outros exemplos incluem:

  • JB Pritzker: Governador de Illinois e herdeiro da rede Hyatt, Pritzker implementou políticas progressistas durante seu mandato e é cotado como possível candidato à presidência em 2028.
  • Ro Khanna: Deputado federal pela Califórnia com patrimônio líquido estimado em US$ 232,7 milhões, Khanna é frequentemente mencionado como potencial nome na ala “Bernie 2028”.
  • Saikat Chakrabarti: Ex-executivo da Stripe, que enriqueceu no setor de pagamentos digitais, agora busca uma vaga na Câmara dos Representantes como candidato de esquerda.

Contexto histórico e contradições

A relação entre riqueza e progressismo não é nova nos EUA. Franklin D. Roosevelt, ícone do New Deal, era membro de uma das famílias mais influentes do país. No entanto, a atual onda de bilionários progressistas surge em um momento de crescente insatisfação com a influência do dinheiro na política, simbolizada por movimentos como os “Fighting Oligarchy” liderados por Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez.

Para analistas, o fenômeno reflete uma estratégia pragmática: candidatos milionários podem financiar suas próprias campanhas, reduzindo a dependência de doadores corporativos. No entanto, críticos argumentam que, no fim das contas, a riqueza pessoal acaba moldando suas prioridades políticas, mesmo que de forma sutil.

Fonte: Vox