A palavra acessibilidade tomou conta do debate público. Políticos e especialistas de todos os espectros a repetem como um mantra, e ela realmente importa. Mas, por trás do discurso, há algo mais profundo corroendo a sociedade: a insegurança.
A instabilidade como novo padrão
O problema não é novo — dificuldades financeiras sempre existiram. O que mudou é a imprevisibilidade que agora permeia a vida cotidiana. Demissões em massa de funcionários federais essenciais, prisões arbitrárias em locais públicos e a sombra da automação substituindo empregos são apenas alguns exemplos de como a estabilidade se tornou um privilégio.
Nos últimos anos, a insegurança deixou de ser um fenômeno pontual para se tornar uma estratégia política e econômica. O que antes era associado a governos estáveis — como programas de saúde ou assistência social — agora é sistematicamente desmantelado, deixando milhões sem rede de proteção.
O complexo industrial da insegurança
A instabilidade não é acidental. Ela é fabricada por uma engrenagem poderosa, alimentada por interesses que lucram com o medo. Steve Bannon, ex-assessor de Trump, cunhou o termo "velocidade de boca" — uma estratégia de comunicação que bombardeia a população com notícias chocantes, sobrecarregando a mídia e mantendo todos em estado de alerta constante.
"Três notícias por dia — eles vão morder em uma." — Steve Bannon, em entrevista à Frontline
Essa tática não apenas distrai, como também explora os medos da população para ganhos políticos ou financeiros. E não para por aí: a insegurança é monetizada de várias formas.
Silicon Valley e a economia da incerteza
As big techs não só transformaram o mercado como também normalizaram a insegurança. Dinâmica de preços em tempo real, aplicativos que apostam em eventos políticos e plataformas de previsão de resultados são apenas algumas das inovações que tornam a vida financeira ainda mais imprevisível.
Exemplos não faltam:
- Preços dinâmicos: O valor do café ou dos ovos pode mudar a cada minuto, como em um cassino.
- Mercados de apostas políticas: Plataformas como a Kalshi permitem que investidores apostem em resultados de eleições ou demissões governamentais, lucrando com a instabilidade.
- Automação e demissões: Setores inteiros são reestruturados da noite para o dia, deixando trabalhadores sem emprego e sem perspectivas.
Luana Lopes Lara e Tarek Mansour, fundadores da Kalshi, acumularam fortunas bilionárias com esse modelo. Segundo a antropóloga da NYU Natasha Schull, essas plataformas reduzem a vida a escolhas binárias, oferecendo uma falsa sensação de controle em um mundo caótico.
Políticos e a indústria do medo
Por trás desse cenário, há também políticos nacionalistas que alimentam a instabilidade para colher dividendos eleitorais. Demissões em massa, mudanças bruscas de políticas e retórica inflamatória são ferramentas para manter a população em um estado de incerteza permanente.
O resultado? Uma sociedade onde a estabilidade é um luxo, e a insegurança, a regra.
O que vem pela frente?
Enfrentar esse complexo exige mais do que discutir preços ou salários. É preciso desmontar as estruturas que lucram com o medo e reconstruir sistemas que ofereçam segurança real — não apenas a ilusão de controle em um mundo cada vez mais imprevisível.