Líderes usam IA para justificar cortes de emprego, mas realidade é outra

À medida que a inteligência artificial (IA) avança, líderes corporativos passaram a usá-la como justificativa para decisões impopulares, como demissões em massa. No entanto, especialistas alertam que essa narrativa não resiste a uma análise mais profunda. A desconexão entre o discurso e a prática está minando a confiança nos líderes e ampliando desigualdades dentro das empresas.

Segundo a autora, palestrante e estrategista Lily Zheng, executivos estão usando a IA para encobrir erros do passado, pressões de investidores ou preferências de gestão. Empresas que contrataram agressivamente durante a pandemia agora estão "corrigindo" suas estratégias, apresentando cortes de pessoal como uma reinvenção impulsionada pela IA — e não como um erro de planejamento.

Após os anúncios, os líderes afirmam buscar ganhos de produtividade por meio da IA. No entanto, a realidade para os funcionários é outra.

"Eles sabem, na prática, que o otimismo da empresa em relação à IA e à produtividade não reflete a realidade",
destaca Zheng. Quando a justificativa para demissões é a eficiência da IA, os colaboradores reconhecem que isso pode ser desde uma estratégia de marketing até pura falta de transparência.

Impacto emocional e cultural das demissões

O custo emocional e cultural de culpar a IA por decisões difíceis é alto. Líderes que transferem a responsabilidade para "o algoritmo" evitam prestar contas sobre cortes de emprego, sobrecarga de trabalho e carreiras estagnadas. Pesquisas recentes mostram que, embora poucas empresas tenham realmente eliminado cargos devido à automação, muitas usam a IA como fachada para cortes de custos ou reestruturações.

Zheng faz um paralelo com o movimento de trabalho híbrido. Estudos mostram que modelos híbridos bem projetados podem manter a produtividade com até 33% menos demissões, especialmente entre mulheres, cuidadores e funcionários com longos deslocamentos. Mesmo assim, muitos líderes voltaram a modelos rígidos de controle, como o retorno obrigatório ao escritório, muitas vezes com ferramentas de vigilância digital que reduzem a produtividade.

O perigo de usar IA como bode expiatório

A especialista alerta que o mesmo padrão está se repetindo com a IA. Em vez de repensar práticas de gestão, métricas e cultura para usar a tecnologia de forma responsável, líderes estão usando a IA para sustentar modelos ineficazes.

O resultado é uma cultura corporativa tóxica, onde a confiança é erodida e a produtividade real é comprometida. Funcionários passam a desconfiar de narrativas corporativas, especialmente aqueles que dependem de processos transparentes para acessar oportunidades.

Para Zheng, a solução não é culpar a IA, mas assumir a responsabilidade pelas decisões. Líderes precisam ser transparentes sobre os motivos reais por trás de cortes e reestruturações, em vez de esconderem-se atrás de algoritmos.